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A primeira «vida» de Camões

3 Jun 2018
VÍTOR AGUIAR E SIVA

Celebra-se, no próximo dia 10 de Junho, o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. O dia de Portugal é comemorado na data do falecimento de Luís de Camões, ocorrido, segundo testemunho documental descoberto pelo Visconde de Juromenha, devotado camonista, no dia 10 de Junho de 1580. Entre tantas incertezas e dúvidas que abundam na biografia de Camões, a data da sua morte, inscrita num documento da chancelaria de Filipe I, rei de Portugal, tem colhido a concordância generalizada dos estudiosos do Poeta, embora Vasco Graça Moura não exclua a data de 1579 – aliás, a data que D. Gonçalo Coutinho mandou gravar na sepultura do épico, na Igreja de Sant’Ana em Lisboa, e que o erudito Manuel Severim de Faria também indicou na sua «Vida de Luís de Camões», publicada nos Discursos vários políticos (1624). Um camonista tão bem informado e perspicaz como Aníbal Almeida, que foi professor de Direito da Universidade de Coimbra e que a morte extemporaneamente colheu, igualmente propendeu para aceitar a data de 1579.

A publicação de Os Lusíadas, em 1572, tornou Camões um poeta famoso em Portugal e em Espanha – as duas traduções em castelhano editadas em 1580, sob os auspícios da Universidade de Alcalá de Henares e da Universidade de Salamanca, decerto com a aprovação de Filipe II, alargaram a fama de Camões a toda a Espanha –,  não tendo tardado a ser elaboradas edições comentadas da epopeia – o comentário era o reconhecimento da canonicidade do poema – e a ser redigidas as primeiras biografias do Poeta.

No ano de 1613, foi publicada em Lisboa a edição de Os Lusiadas do grande Luis de Camoens. Principe da poesia heroica, comentados pelo Licenciado Manoel Correa, cura da Igreja de S. Sebastião da Mouraria, que fora amigo de Camões nos últimos anos de vida do Poeta. A edição de 1613 abre com um prólogo intitulado «Ao estudioso da lição Poetica», da autoria de Pedro de Mariz, provavelmente nascido em Braga, entre 1562 e 1569 e falecido em Lisboa em 1615, que foi sacerdote canonista e «guarda da livraria» da Universidade de Coimbra e, desde 1605, escrivão da Torre do Tombo. Era filho de António de Mariz, que foi impressor régio da Universidade de Coimbra e que na década de 60 criou em Braga uma oficina tipográfica, tendo realizado diversos trabalhos gráficos ao serviço do arcebispo D. Fr. Bartolomeu dos Mártires.

O prólogo de Pedro de Mariz constitui a primeira «Vida» de Camões que foi publicada e nela se encontram informações e comentários que, nos séculos posteriores, foram repetidos e glosados por todos os biógrafos do Poeta. Pedro de Mariz é responsável pelo retrato de Camões como poeta de grandeza sem igual e como vítima, em parte por culpa própria da sua maneira de ser, de um destino adverso e cruel.

Ilustre pela «nobreza de entendimento», pela excelência do seu engenho, pelo seu valor na guerra e pela nobreza da sua genealogia familiar, padeceu ao longo da vida uma atribulada miséria de bens materiais, em parte motivada pelo seu feitio perdulário. Sofreu os tormentos de um formidando naufrágio nos mares da China, tendo salvo por milagre a vida e o poema que o havia de imortalizar, sofreu a humilhação e as agruras da prisão num cárcere de Goa e só pôde regressar ao reino graças à generosidade de alguns fidalgos amigos que lhe pagaram os custos da viagem. Pedro de Mariz evoca com emoção os últimos anos da vida de Camões: velho, doente e amargurado, sem ter duas moedas para que o seu escravo Jau pudesse comprar carvão. A «tensinha» que lhe atribuíra o rei D. Sebastião não o livrou de morrer na miséria. Quando a morte chegou, foi enterrado envolto num lençol que, por caridade, foi dado pela casa dos Condes do Vimioso.

Quando releio as páginas pungentes de Pedro de Mariz, vêm-me sempre à memória os versos terríveis da Almada Negreiros sobre Portugal: « A pátria onde Camões morreu de fome / e onde todos enchem a barriga de Camões!»

O autor não escreve segundo as normas do chamado «acordo ortográfico»



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