Espaço do Diário do Minho

A falta de professores e o futuro de Portugal

1 Mar 2020
VÍTOR AGUIAR E SILVA

O furacão noticioso que, nos últimos dias do passado mês de Janeiro, dominou compreensivelmente os meios de comunicação social portuguesa – a mega corrupção transnacional que tem o seu centro no império empresarial de Isabel dos Santos, mas que é um polvo com múltiplas cabeças e com múltiplos tentáculos, quer em Portugal quer em Angola –, fez passar para um plano secundário outras informações que considero relevantes para a situação presente e futura de Portugal.

Refiro-me, em particular, ao reconhecimento público por parte do Ministério da Educação da falta de professores habilitados pedagogicamente para a docência das diversas disciplinas do ensino básico e do ensino secundário. Entre essas disciplinas, avulta, por razões facilmente compreensíveis, a disciplina de Português.

Na origem desta situação altamente preocupante, está o multiforme processo de degradação, nas duas últimas décadas, do estatuto profissional e social dos professores do ensino básico e do ensino secundário. Ao longo daqueles anos, os professores sofreram, como aliás a generalidade dos funcionários públicos, uma perda significativa do seu nível salarial, agravada nos últimos tempos pela subida brutal do preço de arrendamento da habitação. Sobrecarregados com tarefas de natureza burocrático-administrativa, tendo de leccionar muitas vezes turmas sobredimensionadas, os professores foram compelidos a descurar a sua formação contínua nos domínios científicos, pedagógicos e didácticos. Mal remunerados, com a vida familiar ameaçada pela instabilidade das colocações imprevisíveis, confrontados quotidianamente com populações discentes indisciplinadas, numerosos professores, mesmo prejudicados financeiramente, têm optado em grande número pela reforma antecipada. Por outro lado, muitos jovens que entram nas Universidades não escolhem cursos que habilitem para o exercício do magistério no ensino básico e no ensino secundário, porque o horizonte profissional é desmotivador. Com efeito, é desolador verificar, ano após ano, que são maioritariamente os alunos mediocremente classificados que se matriculam nos cursos de Letras e até de Ciências cujas saídas profissionais são o magistério no ensino básico e no ensino secundário.

As próprias Universidades não têm investido, como seria necessário e desejável, na formação de professores, em clamoroso contraste com o que se verifica nas três últimas décadas do século XX. As chamadas «Universidades Novas» – e é justo sublinhar o pioneirismo neste domínio da Universidade do Minho – tiveram então um papel decisivo na refundação científica, pedagógica e didáctica dos cursos de formação de professores. Mudaram os planos de estudos, mudaram os métodos e os processos de ensino e de aprendizagem, mudaram as relações institucionais das Universidades com as Escolas básicas e secundárias, mudaram a mentalidades individual e socialmente. Valia a pena ser então professor.

Este capital de prestígio e de relevância comunitária tem sido delapidado nas duas últimas décadas, após a governação do Professor Marçal Grilo, o melhor ministro, em meu entender, que teve a seu cargo o pelouro da Educação. Não é fácil recuperar e reconstituir aquele capital. Mas sem uma mudança profunda nas políticas de formação de professores e nas políticas do exercício da actividade dos professores do ensino básico e do ensino secundário, é todo o futuro do desenvolvimento cultural, científico, social e económico do nosso País que fica hipotecado.

O autor não escreve segundo as normas do chamado acordo ortográfico

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Sem uma mudança profunda nas políticas de formação de professores e nas políticas do exercício da actividade dos professores do ensino básico e do ensino secundário, é todo o futuro do desenvolvimento cultural, científico, social e económico do nosso País que fica hipotecado.



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