Espaço do Diário do Minho

A musicalidade dos afectos

26 Jun 2020
Carlos Aguiar Gomes

Tenho um grande desgosto de nunca ter estudado música. No Liceu, tive dois anos de Canto Coral, com um grande Mestre mas pouco pedagógico. Nada aprendi.
Gosto imenso de Música (intencionalmente escrevo com inicial maiúscula) e todos os dias oiço muita. E em viagem, nunca me esqueço de escutar boa Música. Não gosto de toda e muito menos “daquilo” que é somente ruído.
Mas gosto, também da música das palavras, da sua musicalidade. Um bom poema é, no meu pobre entender, música pura que as palavras conjugadas nos dão. Aliás, apesar de ter tido durante três anos do meu Liceu, um mau professor da minha querida língua, quando descobri que a poesia era música, passei a ler Poesia. Tudo por causa da mensagem musicalizada. Ler uma boa Música que é um bom poema, hoje, já velho, não tenho dúvidas nenhumas, que é um prazer interior que não se descreve mas se sente por dentro.
Mas, o que me fascina é a MÚSICA DOS AFECTOS. Que bela música é um lindo gesto de afecto!
Quero partilhar com os meus leitores, a “música afectiva” que vivi um dia destes.
No jardim da minha casa de Paredes de Coura havia, entre outras flores abertas, um belo Gladíolo. Passei, com o meu neto Francisco, junto desta flor. O miúdo, nos seus seis anos, é muito interpelativo, curioso e atento, de repente, perguntou-me: «Ó Avô, quando vais cortar esta flor?». Não sou muito de cortar as “minhas” flores. Gosto de as ver abrir, encantar-me em plena floração e, finalmente, vê-las chegar ao seu fim que me lembra o meu! Toda a pergunta tem resposta e vinda de um neto meu, tão querido, respondi-lhe, adivinhando a sua vontade em cortar o dito Gladíolo: «Amanhã, a Avó faz anos, vamos cortar a flor e tu vais dá-la à Volila (é assim que os nossos netos tratam a Avó). Naquele momento, ficou tranquilo e aceitou a minha proposta assim:« A Avó merece!». Por dentro “derreti”!
…. Mas foi “sol de pouca dura”.
Um parêntesis: o pai deste meu neto, é um alto quadro de uma multinacional que neste tempo de pandemia está em teletrabalho e… viu aumentada a sua área de intervenção. Está fatigado e o pequeno sabe que o Pai anda cansado.
Passados poucos minutos depois do episódio do meu diálogo com o Francisco, este desaparece e regressa rapidamente com o Gladíolo na mão, muito feliz, junto do Pai que estava a conversar comigo, e entrega-lhe o Gladíolo, olhando para mim, à espera que lhe desse um raspanete por me ter cortado a dita flor, olhando-me com alguma expectativa ansiosa. Não disse nada, sorri e disse que seria bom colocar aquela flor numa jarra com água para não secar. O pai deu-lhe um beijo e agradeceu-lhe o lindo presente, ignorando o meu contrato com o seu filho.
Passados uns minutos, sucedeu que ficámos os dois sozinhos: o Francisco e eu. Sentia que ele estava um pouco curioso com o que lhe iria dizer. O Francisco sabia que tinha quebrado o nosso acordo!
Foi então que ele me disse «Sabes Avô, o Pai anda tão cansado…». O diálogo continuou comigo a dizer-lhe: «Como a Volila vai ficar muito contente que tivesses dado a flor ao teu Pai!… ». Resisti, dada esta maldita COVID- 19, a cobri-lo de beijos pela belíssima sinfonia de afectos que me tinha proporcionado. Quase chorei ao dizer-lhe que, também eu, achava que ele tinha feito bem, apesar de ter quebrado a nossa combinação!
Agora, caros leitores que tiveram a pachorra de ter chegado ao fim deste meu escrito sobre esta música de afectos, tão “ fora de moda”, que o Francisco me ofereceu, por favor, digam-me se a “música deste afecto” não é uma beleza!
Muito obrigado Francisco por este tão belo andamento de uma sinfonia de afectos que tu soubeste compor tão bem!



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