Vídeo: Miguel Viegas

Produtor de Melgaço.

Luísa Teresa Ribeiro
25 Dez 2020

Tradição, inovação e sustentabilidade são palavras que definem a Quinta de Soalheiro. Considerada a «primeira marca de Alvarinho em Melgaço», a aposta é em vinhos feitos «para dar prazer às pessoas».

Os tons amarelados e acastanhados começam a substituir o verde nas folhas das videiras, indicando que ainda fazem alguma fotossíntese, mas que se preparam para entrar em dormência durante o inverno. Disposta em ramada, esta vinha é alvo de atenção constante, uma vez que foi aqui que começou há 46 anos a história da Quinta de Soalheiro.

Foi em 1974, na parcela com este nome, que lhe advém da sua boa exposição solar, que João António Cerdeira, com o apoio do pai, António Esteves Ferreira, plantou a primeira vinha contínua de Alvarinho no concelho de Melgaço, em Alvaredo, com o objetivo de tornar mais rentável a agricultura de subsistência que se praticava.

O primeiro vinho com nome próprio foi feito em 1982, na garagem da família, tornando-se num marco na vida do produtor que ostenta o título de «primeira marca de Alvarinho em Melgaço». Da vinha inicial saem as uvas que dão origem ao icónico “Alvarinho Soalheiro Primeiras Vinhas”, que já ganhou diversas vezes o prémio de melhor vinho branco a nível nacional.

O projeto que ocupava os tempos livres da família profissionalizou-se e conta hoje com 35 funcionários. Um campo deu lugar a quase 14 hectares próprios, em produção biológica desde 2006, a que acrescem cem hectares associados à empresa através do Clube de Produtores, constituído por 150 proprietários. Com uma produção anual superior a 800 mil garrafas, o vinho chega a 35 países, com o volume de exportações a aumentar.

«Desde 1974, foi um percurso contínuo», refere Maria João Cerdeira, que gere a empresa em conjunto com o irmão, António Luís, sob a supervisão da mãe, Maria Palmira.

Em plena vinha que deu origem à marca, caminhando sobre o coberto vegetal húmido, esta responsável refere ao Diário do Minho que uma caraterística determinante do Soalheiro é a diversidade, tanto em termos geográficos, com vinhas dispersas pelo território, a diferentes altitudes, entre o vale e a montanha, como na forma como as videiras são tratadas pelos membros do Clube de Produtores.

Ponto assente é aposta na qualidade e respeito pela diversidade, sendo que cada perfil de uva vai para um determinado vinho. «A uva Alvarinho é a que tem o preço mais elevado do mercado. A partir dos 11,5 graus, pagamos o máximo porque o que nos interessa é a qualidade e não apenas a graduação alcoólica. Uma vinha de altitude não consegue atingir os 13 graus», revela.

Embora com personalidades diferentes, todos os vinhos Soalheiro são feitos para «dar prazer às pessoas», seja em casa, num restaurante ou num convívio, e não a pensar na participação em concursos. «Os vinhos ganham outra dimensão quando estamos juntos, bebemos e comemos. Os vinhos contam uma história», argumenta.

Questionada sobre o leque de vinhos que a empresa apresenta, esta responsável assegura que «todos são amados da mesma forma».

Em seu entender, o Alvarinho Soalheiro Clássico mostra «a consistência da qualidade», devendo estar acessível a todos, através da presença nas grandes superfícies, com um preço justo. «É a nossa raiz e identidade. É o vinho que melhor carateriza a frescura aromática e a pureza da casta Alvarinho, apresentando uma grande evolução em garrafa», afirma. O vinho de 2020 já está no mercado, cumprindo a tradição de ser lançado a tempo de fazer parte das mesas dos apreciadores na  época natalícia.

Relativamente aos Soalheiros Naturais, estes surgem para deixar «ver a espontaneidade da natureza, com uma intervenção mínima». «São vinhos muito interessantes, que podem não ser iguais todos os anos, uma vez que são deixados mais livres», explica.

Em destaque está o Terramatter – nome escolhido por Maria Palmira Cerdeira –, vinho com certificado biológico que tem recebido rasgados elogios. «É um vinho quem tido uma aceitação muito grande devido às suas caraterísticas: sem filtração, lembra um vinho feito à moda antiga», resume.

«Nunca nos devemos esquecer de onde vimos. Vimos de um território que devemos preservar e que deve ser sustentável.»

 

Investimento de um milhão de euros permite consolidar aposta na inovação

Um investimento de um milhão de euros na nova adega permite à Quinta de Soalheiro, em Melgaço, consolidar a aposta na inovação e melhorar as condições para o enoturismo.

Para além da melhoria da organização interna e de logística, as obras possibilitaram a criação da Cave da Inovação, onde estão a ser desenvolvidos projetos próprios e de alguns parceiros.

Esta incubadora de ideias permite dar suporte técnico e ajudar a concretizar projetos inovadores, traduzindo na prática a certificação em inovação que a Quinta de Soalheiro possui.

«Agora temos todas as condições para haver o registo das experiências e para a aquisição de conhecimento», refere Maria João Cerdeira.

A Cave de Espumantes foi outra das inovações, na linha da aposta visionária que a empresa fez em 1995, ano em que criou o primeiro espumante de Alvarinho da região. Atualmente, estão no mercado o Soalheiro Espumante Bruto Alvarinho, o Soalheiro Espumante Bruto Rosé, o Soalheiro Espumante Bruto Barrica e o Soalheiro Espumante Bruto Nature.

Em obras, que deverão demorar seis meses, mas dependentes da evolução da pandemia, está a parte dedicada ao enoturismo, estando prevista uma nova loja, a criação de mais uma sala de provas e de gabinetes de trabalho.

A sala onde atualmente são feitas as provas, com uma vista soberba sobre o vale, que permite vislumbrar o rio Minho, vai continuar a existir, mas em articulação com os novos espaços, facultando a diversificação das experiências colocadas à disposição dos visitantes.

A adega tem uma cobertura natural, o que permite  diminuir o impacto paisagístico e ao mesmo tempo poupar cerca de 20 por cento em energia.

A colocação de um painel solar vai compensar os gastos energéticos da adega, seguindo também aqui a preocupação da empresa com a sustentabilidade, quer a nível ambiental, quer económico.

Entre as últimas novidades nesta área está o lançamento recente de uma garrafa mais sustentável, produzida em Portugal. O Soalheiro Clássico 2020 já está a ser comercializado nesta garrafa.

 

Vinha em branda testa potencial do Alvarinho

Uma vinha de Alvarinho com 2 mil metros de área está a crescer na Branda da Aveleira, na freguesia de Gave, concelho de Melgaço, a cerca de 1100 metros de altitude, num solo onde predomina o xisto.

O Soalheiro é considerado especialista em Alvarinho, porque trabalha essencialmente com a casta nobre da Sub-região de Monção e Melgaço, mas a empresa quer aumentar o conhecimento que tem sobre o seu potencial.

Com pouco mais de um ano, a vinha vai precisamente permitir aprofundar o conhecimento sobre a casta Alvarinho, uma vez que está sujeita ao clima mais agreste da montanha e ao coberto vegetal rasteiro caraterístico desta zona.

Maria João Cerdeira refere que, nesta fase, o objetivo é perceber se a vinha se adapta à montanha, tendo sido escolhidas condições favoráveis para o seu desenvolvimento, designadamente uma localização com exposição solar durante todo o dia, sistema de condução ascendente e espaçamento mais curto entre as videiras para o caso de alguma secar.

A expetativa é que a primeira vindima ocorra dentro de três anos, sendo que as uvas vão ser vinificadas à parte para avaliar o seu potencial.

A coordenadora da viticultura do Soalheiro espera «encaixar o ciclo da vinha no ciclo da branda». Recorde-se que tradicionalmente a população vivia nas zonas baixas, as chamadas inverneiras, e subia para a montanha, as designadas brandas, entre maio e outubro, para aproveitar os pastos para os animais.

Questionada sobre as verbas que é preciso despender para plantar uma vinha experimental longe da sede, a responsável refere que este é «o custo do conhecimento». «A empresa tem de investir em conhecimento, caso contrário estagna. Seguramente que vamos tirar alguma aprendizagem deste projeto», afirma, perspetivando que os dados poderão ser úteis num cenário de alterações climáticas.

Na mesma linha, a Quinta de Soalheiro está a acompanhar o envelhecimento das vinhas. «Queremos perceber a evolução das vinhas e as caraterísticas das uvas que produzem. Se tivermos só inovação, sem mantermos a tradição, não temos forma de fazer comparações», afirma.

A empresa continua a trilhar o caminho da sustentabilidade ambiental, com o modo de produção em agricultura biológica. «Para nós é muito importante que haja um equilíbrio entre a planta, o solo, a flora e a fauna locais. Temos de estimular a biodiversidade para conseguirmos manter as caraterísticas do território», declara.

 

Projeto “Germinar” promove integração social

A Quinta de Soalheiro é parceira do Projeto Germinar, que visa a integração de utentes da Delegação de Valença da APPACDM – Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental no trabalho da vinha.

Depois do desafio lançado por um casal produtor de uvas, o projeto foi encabeçado pelo Clube de Produtores de Monovarietais do Vinho Verde. No terreno, António Matos, produtor de uvas e técnico superior de Serviço Social, acompanha os jovens no trabalho nas vinhas.

Para além do trabalho de viticultura ajustado a cada perfil de integração, os utentes da instituição conceberam os desenhos que deram origem ao rótulo e à caixa para o vinho.

Trinta por cento da venda das garrafas reverte para a Delegação de Valença da APPACDM.

Tendo em conta esta vertente social, o Soalheiro lançou o “Cabaz de Natal Projeto Germinar”, que inclui o Soalheiro Germinar, o Soalheiro Alvarinho e um Chá Biológico Soalheiro, por 23,50 euros, que pode ser adquirido na loja online. As propostas de Natal incluem o “Cabaz de Natal com Espumante”, “Cabaz de Natal Soalheiro Premium”, “Cabaz de Natal Fumeiro Tradicional de Melgaço” e “Cabaz de Natal Chá Biológico Pur Terroir”, que também podem ser adquiridos através da Internet.

 

Enoturismo com programas diversificados

A Casa das Infusões é a mais recente aposta do Soalheiro na área do enoturismo. Inaugurado no passado mês de agosto, o alojamento local vem complementar a oferta diversificada que a empresa coloca à disposição dos visitantes, que vai desde a prova de vinhos, às infusões até uma experiência gastronómica completa.

A Casa das Infusões tem capacidade para seis hóspedes, podendo ser reservada por 120 euros a noite, com pequeno-almoço incluído, sendo duas noites o período mínimo de permanência.

Também é possível adquirir um voucher presente intitulado “Viagem ao Território do Alvarinho”, que inclui uma noite na Casa das Infusões, o pequeno-almoço e uma experiência gastronómica à base de produtos locais, harmonizada com vinho Soalheiro, para duas pessoas. Há um voucher apenas com a experiência gastronómica.

Outro projeto em crescimento é o da produção de infusões, comercializadas com a marca “Herbal Tea Selection”.

A gama é atualmente composta por lúcia-lima, hortelã verde, tomilho-limão, cidreira, perpétua vermelha, hortelã-pimenta, tomilho, alcachofra e alecrim.

 




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