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Vítimas expostas a práticas abusivas em idades precoces

Luísa Teresa Ribeiro
12 Fev 2021

O Observatório Nacional do Bullying registou 407 denúncias no primeiro ano de atividade. A presidente da Associação Plano i, entidade que criou este instrumento, alerta que os dados obtidos são preocupantes, não apenas pela «magnitude do fenómeno, mas também pela sua densidade».

Criado a 30 de janeiro de 2020, o Observatório Nacional do Bullying surgiu com o objetivo de «mapear o fenómeno do bullying em Portugal com base nas denúncias informais efetuadas por vítimas, ex-vítimas, testemunhas e pessoas que tiveram conhecimento da vitimação».

A presidente da Plano i, Sofia Neves, explica que quando aquela associação tomou a decisão de criar o Observatório Nacional do Bullying fê-lo «a partir de evidências que apontavam para a necessidade de ser disponibilizado às vítimas, ex-vítimas, testemunhas e pessoas que tiveram conhecimento de casos de bullying um espaço de denúncia anónima e informal».

«Apesar de estarmos cientes dessa necessidade, o número de reportes superou todas as expetativas. Consideramos que mecanismos como este podem ser muito úteis no mapeamento de fenómenos criminais que tendem a apresentar elevadas cifras negras, pelo que o balanço é, desse ponto de vista, positivo», afirma a professora universitária bracarense ao Diário do Minho.

No seu primeiro ano de funcionamento, esta estrutura registou um total de 407 denúncias, tendo 307 sido realizadas por pessoas de sexo feminino e 100 por pessoas de sexo masculino.

A maior parte das vítimas ou ex-vítimas são do sexo feminino (249). A média de idades de quem sofreu bullying é, no caso das raparigas, de 11,84 anos e, no caso dos rapazes, de 11,67 anos.

Em 11,3% dos casos o bullying foi praticado quando as vítimas frequentavam o 5.º e o 7.º anos respetivamente e, em 10,6%, o 6.º ano.

No tocante às pessoas agressoras, o maior número é do sexo masculino (211). A média de idades de quem praticou o bullying é, no caso das raparigas, de 12,56 e, no caso dos rapazes, de 12,37 anos.

Olhando para as tipologias de violência, 92,1% é de natureza psicológica, 66,6% social, 50,4% física, 9,3% sexual, e 4,9% financeira.

«O bullying parece agregar várias formas de violência, ainda que a psicológica seja a mais expressiva, e ser praticado de forma persistente em vários contextos. Assim, as vítimas parecem estar continuamente expostas a práticas que atentam contra a sua dignidade e segurança, em idades muito precoces», refere a ativista dos direitos humanos.

Em 94,6% dos casos reportados, as vítimas e as pessoas agressoras frequentavam o mesmo estabelecimento de ensino.

Na escola, o principal local de ocorrência dos casos de bullying é o recreio (60,4%), seguindo-se a sala de aula (50,4%), a biblioteca/centro de recursos (47,9%), e o polivamente e a porta da sala de aula (31,2% cada).

Relativamente aos motivos para a prática do bullying, o aspeto físico destaca-se, com 51,8%, seguindo-se os resultados académicos (34,9%), idade (16,5%), diversidade funcional (13,3%), sexo (12%), orientação sexual (9,1%), nacionalidade (4,9%), etnia (4,9%) e identidade de género (4,2%).

 

Impactos do bullying comprometem a saúde das vítimas

Sofia Neves, presidente da Associação Plano i. ©Nélida Cardoso

Os casos reportados ao Observatório Nacional do Bullying ao longo de 2020 indicam que as dificuldades de concentração (32,2%) são o principal impacto do bullying, surgindo a seguir tristeza (31,2%), dificuldade de sono (27,5%), ansiedade/nervosismo (27%), vergonha (25,6%) e dores de cabeça (23,1%).

«Os impactos do bullying manifestam-se a diferentes níveis, comprometendo a saúde psicológica, física e social das crianças e jovens que o sofrem», adverte a presidente da Associação Plano i, Sofia Neves.

Os pedidos de apoio e de informação foram efetuados sobretudo por encarregados e encarregadas de educação (67% dos casos), sendo 32 anos a média de idades das pessoas denunciantes. «Na larga maioria dos casos, a partilha incidiu sobre o sentimento de injustiça face à não resolução dos casos de bullying por parte das escolas. Em algumas situações os contactos foram realizados com o objetivo de saber como agir e que mecanismos acionar para proteger as vítimas», adianta esta responsável.

Durante o 1.º período de confinamento motivado pela pandemia de Covid-19, foram reportados cinco casos, sendo uma de uma vítima atual, cuja vitimação ocorre desde 2017, e quatro de ex-vítimas. «Não obstante terem sido efetuadas denúncias durante o confinamento, não é possível afirmar, de acordo com os dados obtidos pelo Observatório, que houve um aumento ou uma diminuição do fenómeno», diz.

Em termos geográficos, 24,3% dos casos ocorreram no distrito do Porto, 20,9% no de Lisboa, 10,6% no de Braga e 8,1% no de Setúbal.

 

Bullying pode continuar com o ensino à distância

©Annie Spratt

A presidente da Associação Plano i considera que as preocupações em torno da temática do bullying «devem existir sempre, independentemente de o ensino ser ou não presencial».

Questionada sobre o regresso do ensino à distância, Sofia Neves afirma que «o facto de as atividades letivas estarem suspensas em regime presencial não significa que o bullying deixe de ser praticado, neste caso com um recurso mais acentuado às tecnologias de informação e comunicação».

«Com efeito, quanto mais tempo as crianças e jovens estiverem online, maior é o risco de serem vítimas de cyberbullying, pelo que é fundamental que a supervisão por parte de pessoas adultas seja reforçada», vinca.

Interrogada sobre a importância dos estabelecimentos de ensino, esta responsável defende que «o papel das escolas é efetivamente muito relevante, mas não compete apenas às escolas combater o bullying».

«Sendo um problema estrutural, o bullying tem que ser prevenido e combatido numa lógica de transversalidade, onde todos os agentes assumam a sua responsabilidade pela promoção dos direitos das crianças e jovens e pela sua proteção», argumenta.

Em seu entender, «têm vindo a ser dados passos importantes nesta matéria, mas ainda não suficientes», pelo que «o diálogo entre as diferentes entidades que atuam neste âmbito terá que ser estreitado, por forma a que as intervenções possam ser mais articuladas e, assim, mais eficazes».

 

Manuais ajudam a prevenir e combater o bullying

No âmbito do Plano B – Programa de Prevenção do Bullying, um projeto que terminou em novembro de 2020, a Associação Plano i produziu um “Manual para a Educação de Pares” e um “Manual de Intervenção para Profissionais”, que podem ser descarregados gratuitamente na página desta organização.

«Entendemos que estes são recursos muito úteis para prevenir e combater o bullying», refere a presidente da associação, Sofia Neves.

Questionada sobre se o Observatório Nacional do Bullying ambiciona ter financiamento público, a presidente da Plano i argumenta que «todas as organizações não governamentais necessitam de financiamento para que as suas atividades sejam sustentáveis a longo prazo. Projetos como estes resultam melhor quando é possível afetar-lhes recursos humanos a tempo integral, algo que só é possível com financiamento».

A docente universitária acrescenta que, «embora a Plano i não tenha presentemente nenhum projeto financiado nesta área em específico, continua a trabalhar as questões do bullying em articulação com outros temas que afetam as crianças e jovens, como por exemplo a violência no namoro».

Esta associação organiza atividades e projetos de sensibilização, formação, educação, intervenção e consultadoria contra a desigualdade, discriminação, violência, exclusão e pobreza, tendo a sua sede oficial no Porto.

No âmbito do projeto UNi+ – Programa de Prevenção e Combate à Violência no Namoro no Ensino Superior, tem um espaço de atendimento em Braga, na rua Santa Margarida, n.º 2 A – 3.º Direito, Sala 3.




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