Espaço do Diário do Minho

Práticas, sinais e devoções quaresmais

22 Fev 2021
P. João Alberto Correia

Cerca de duzentos anos após a morte de Jesus, os cristãos começaram a preparar a Páscoa com três dias de oração, meditação e jejum. Em meados do séc. IV, esse tempo passou para quarenta dias e, por isso, começou a chamar-se Quaresma (do latim, quadragesima dies). O número quarenta é, na Escritura, símbolo da preparação, da prova e do arrependimento (Ex 24, 18; Jn 3, 4; Mt 4, 2; At 1, 3).

A Quaresma é, por isso, o tempo de preparação para a Páscoa, mediante o arrependimento e a conversão. Começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na Quinta-feira Santa, dia em que se inicia o Tríduo Pascal. Os domingos não entram na contagem por serem o dia da semana em que se celebra a Páscoa de Jesus.

Entre as práticas quaresmais, contam-se a esmola, a oração e o jejum (evangelho da Quarta-feira de Cinzas [Mt 6, 1-6.16-18]). A esmola remete para a partilha e o jejum significa comer menos. Além destas, são de referir a confissão quaresmal e a abstinência que consistia tradicionalmente em não comer carne, mas pode ser entendida como privação do que mais gostamos. De uma forma ou de outra, o jejum e a abstinência têm como objetivo promover o autodomínio, fomentar a partilha e lembrar que “nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4).

São diversos os sinais da Quaresma: as cinzas lembram-nos a brevidade da vida e a fragilidade da condição humana (“Lembra-te, homem, que és pó…”); a ausência de flores, nas Igrejas, sugere a contenção e o recolhimento (excetua-se o Domingo da Alegria/IV da Quaresma); o roxo dos paramentos, a ausência do Glória e do Aleluia, nas celebrações, situam-nos num tempo de introspeção reflexiva, favorecida por uma música mais recolhida (o órgão deve tocar, em volume baixo, apenas para acompanhar os cânticos).

Também são diversas as devoções da Quaresma. A mais pública é a Procissão de Passos (a palavra “passos” deriva do particípio perfeito latino passus, a, um, “que sofreu”). Não é uma peça de teatro nem uma festa, apesar de eu já ter ouvido chamar-lhe Festa dos Passos e mesmo romaria quaresmal! A Procissão de Passos só faz sentido se for uma oportunidade para meditar no sofrimento de Jesus e nos tornarmos mais sensíveis ao sofrimento dos outros.

Devoção muito divulgada é a Via Sacra (“caminho sagrado”). Consiste na meditação da Paixão, em 14 estações. A sua forma atual aparece já na primeira metade do século XVII, foi difundida por S. Leonardo de Porto Maurício (+1751), aprovada pela Santa Sé e enriquecida de indulgências. Acontece, por regra, nas Igrejas, mas também nos lares cristãos e no espaço público. A Via Sacra ao vivo tornou-se frequente entre nós e, por vezes, quase se confunde com as Procissões de Passos.

Devoção menos frequente é a das Sete Dores de Nossa Senhora: profecia de Simeão (Lc 2, 34-35); fuga para o Egito (Mt 2, 13-15); perda de Jesus, no Templo (Lc 2, 41-51); encontro de Maria com Jesus a caminho do Calvário (Lc 23, 27-31); morte de Jesus, na cruz – Stabat Mater (Jo 19, 25-27); Maria recebe nos braços o filho morto – Pietà (Mt 27, 55-61); Maria observa a sepultura do Filho (Lc 23, 50-55). É vivida com muita intensidade, nas sextas-feiras da Quaresma, na Igreja de Nossa Senhora das Dores, Póvoa de Varzim.

Pelas suas práticas, sinais e devoções, a Quaresma torna-se “uma viagem que envolve toda a nossa vida, tudo de nós mesmos. É o tempo para verificar as estradas que estamos percorrendo, para encontrar o caminho que nos leva de volta a casa, para redescobrir o vínculo fundamental com Deus, do qual tudo depende” (Papa Francisco, Homilia da Quarta-feira de Cinzas de 2021). Redescoberto o vínculo com Deus, ganha sentido e força o vínculo com os outros e com a natureza, em ordem a promover a fraternidade universal e a ecologia integral, como nos recordam duas das encíclicas do Papa Fancisco: Fratelli Tutti e Laudato Si’.



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