Espaço do Diário do Minho

Reaprendizagens e/ou acomodações?

22 Fev 2021
António Sílvio Couto

Nos tempos mais recentes, dá a impressão, que temos andado entalados entre a reaprendizagem e a acomodação, isto é, desejando compreender a situação geral e adaptando-nos no particular àquilo que nos é dado viver… pelo pensar, pelo agir e mesmo pelo sobreviver. Resultado da recente pandemia que se abateu sobre a Humanidade (geral), temos tentado perceber o que isso influenciou a nossa vida (particular), desde as coisas mais visíveis, evidentes e palpáveis até aos aspetos mais simples, recônditos ou menos claros. Tudo mudou e, se tal não aconteceu ainda, então estaremos todos em perigo.

As exigências de higienização vieram introduzir novas formas de estarmos, pois o medo da transmissão do vírus tornou-nos mais cuidadosos. Será que isto não veio denunciar alguma falta de higiene das pessoas, dos lugares e das condições de habitabilidade de espaços, públicos ou privados? As quantidades de gel-desinfetante que foram vendidas não denunciam que nem sempre temos cuidado no trato de uns para com os outros? Certos rituais de salubridade não vieram pôr a manifesto situações de falta de civilidade mesmo na via pública?

Foi só à custa de serem anunciadas multas e sob a ameaça de penalizações que boa parte da população passou a usar regularmente máscara na rua. As várias e diversas etapas de confinamento continuaram a ser ignoradas por alguns habilidosos, dando a impressão de que somos, como povo, especialistas em tornear as regras, mesmo que estejamos a colocar tudo e todos e perigo… É lamentável, senão mesmo repugnante, que o civismo de muitas pessoas – algumas delas com responsabilidade social e política – se guie mais pela coacção do que pela convicção, se faça valer mais das exceções do que das regras e que se procure usufruir mais do que separa do que daquilo que une… Ainda não sentimos que a pandemia nos irmanou mais na desgraça do que no (pretenso) sucesso, que nos queriam impingir despudoradamente.

Nada será igual depois destes meses – dizem uns tantos que serão anos, talvez uma década – de provação, de sacrifícios, de condicionamentos e, sobretudo, de empobrecimento económico-financeiro. Terminologias usadas para caraterizar lutas partidárias esfumaram-se na contingência de estar em risco o emprego, dado que falta trabalho e nem as manigâncias governativas de pagar a quem está em casa, poderá salvar o afundamento do tecido económico e da componente de futuro sem dificuldades. Certos arautos da (pretensa) igualdade estão equivocados com as mentiras que continuam a reproduzir, querem sustentar artificialmente e, em especial, a tentarem não-dizer a verdade, por muito dura e atroz que possa ser…

É preciso de uma vez por todas que sejam creditados conceitos e não se usem por uns tantos se julgarem superiores ao resto da populaça. Fala-se, recorrentemente, de ‘cultura’ para reclamar da falta de ajudas para um setor que se considera dono-e-senhor disso a que denominam de ‘cultura’, como se outras coisas que não as suas produções e exibições não sejam cultura. Dever-se-ia designar muito dessa pretensa ‘cultura’ antes de: artes, ofícios, tecnologias, cançonetismo/musicalidades, espetáculos ao espelho e para os seus, escritorice enrolada em autossatisfação… A verdadeira cultura tem raiz no povo, bem mais inteligente, sábio e culto do que tantos/as opinadores à ração, mas sem razão. Tirem o alvo da tal ‘cultura’ das franjas da capital e ver-se-ão mais factos culturais, que não vivem nem precisam de palcos esfumados nem de estarem sob a cortina dos fumos ideológicos… É verdade, a pandemia veio peneirar o farelo oportunista e falso com que anos-a-fio nos têm manipulado.

O setor do futebol – que não é mais um desporto, mas antes uma indústria ou talvez comércio – continua vivo e, retirando o público, das bancadas, igual a si mesmo: quezilento, preconceituoso, manipulado, arrogante e – numa palavra – como o mais fidedigno retrato do país que somos: a viver no faz-de-conta que é rico, mas empobrecido até ao tutano… Veja-se como se compram-e-vendem jogadores como se não houvesse amanhã e os resultados não aparecem. Repare-se como se discute quase até à exaustão uma ‘crise’ num clube, enquanto outros vão surfando sob as ondas iguais, desde que não se descubra. Atente-se às declarações ditas de paz, mas que mais não são do que um insuflar de combustível para a fogueira, onde todos se irão queimar… irremediavelmente… Estes bombeiros-pirotécnicos.

Já teremos reaprendido com tantos sinais ou ainda estaremos a tatear na acomodação? Quando começaremos a viver na verdade, sem disfarces, embora com máscara, nem atropelos?



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