Espaço do Diário do Minho

Que nada fique igual no itinerário quaresmal

23 Fev 2021
João António Pinheiro Teixeira

  1. Eis-nos chegados, uma vez mais, ao tempo santo da Quaresma. Eis-nos chegados, uma vez mais, a este tempo de graça e de luz, a este tempo totalmente centrado em Jesus.

Eis-nos chegados, uma vez mais, a este tempo de conversão, que há-de começar bem dentro do nosso coração.

  1. Não é para que tudo fique igual que estamos a percorrer o itinerário quaresmal.

É para que tudo possa ser diferente que o apelo à mudança se torna mais insistente.

  1. Jesus é o novo Moisés, aquele que vai guiar o povo para a verdadeira libertação, não já pelas águas do Mar Vermelho, mas pelas águas do Baptismo.

E Ele é o definitivo profeta, que nos encaminha para a Verdade e para a Vida (cf. Jo 14, 6).

  1. Desta acção libertadora de Jesus irá nascer um novo homem e um novo povo.

É com este homem e com este povo que, em Jesus, Deus vai fazer uma nova Aliança.

  1. Não estamos sós. Estamos sempre «apoiados na força de Deus» (1Tim 1, 8). É Ele que nos salva. É Ele que nos chama a sermos santos (cf. 1Tim 1, 9): não por aquilo que nós possamos fazer, mas unicamente por Sua graça (cf. 1Tim 1, 9).

Esta graça é-nos dada pelo Filho de Deus, por Jesus Cristo. Foi Ele que, na Sua morte, destruiu a morte. Foi Ele que, na Sua morte, fez brilhar a vida (cf. 1 Tim 1, 10).

  1. O paradoxo nunca nos deixa: nem como pessoas nem como discípulos de Cristo. É preciso dar a vida para ganhar a vida. É preciso morrer para ressuscitar.

Será que estamos dispostos a deixar-nos desassossegar por Deus?

  1. Abraão é o primeiro grande modelo bíblico de quem se deixa desassossegar por Deus. É de Deus a voz que o manda deixar a sua terra e a sua família (cf. Gén 12, 1).

Nem sequer lhe é dito para onde ir: «Parte para o país que Eu te indicar» (Gén 12, 1). O que vale é a garantia de Deus. A única segurança é a Palavra de Deus.

  1. O nosso problema é que nos falta a ousadia de deixar antes de partir. Às vezes, até nos dispomos a partir, mas levando tudo o que é nosso.

Esquecemos que Deus começa por pedir a Abraão que «deixe».

  1. Com Abraão, que cada um de nós diga: «Aqui estou» (Gén 22, 1).

Que cada um de nós esteja acolhedor quando Deus nos visita. Que cada um de nós esteja atento quando Deus nos fala.

  1. Deus oferece-nos o melhor que tem: o Seu próprio Filho.

Se Deus dá o melhor por nós, como é que nós não havemos de dar o melhor a Deus?



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