Espaço do Diário do Minho

O regresso da Inquisição

25 Mar 2021
M. Moura Pacheco

O Tribunal do Santo Ofício foi criado em 1231 pelo Papa Gregório IX com o fim de julgar os desvios à «pureza da Fé», ou seja, as «heresias». E heresia era tudo o que não coincidisse com a doutrina oficial da Igreja ou com os usos e costumes da sociedade de então, intensamente moldada por essa mesma doutrina. Opiniões inócuas, práticas inocentes, eram consideradas heréticas, eclesiasticamente condenadas e os seus autores entregues ao poder civil (ao braço secular – dizia-se) para execução da sentença. As penas eram, geralmente pesadíssimas e iam desde a prisão até à morte.

Com o advento da Reforma protestante, o tribunal reformulou-se para enfrentar novos e específicos desafios e é aí que passa a ser conhecido por Inquisição – nome que lhe ficou até aos nossos dias. Porque não julgava só os casos conhecidos, públicos ou denunciados, mas investigava, procurava, isto é inquiria supostas heresias. É então que o seu poder aumenta e, com ele, a ferocidade e a crueldade que tornou famosa a instituição.

Para além de interesses obscuros (como, por exemplo, a cobiça das fortunas dos cristãos-novos), a ignorância, geral e científica, da época levava a que todo o desconhecido fosse considerado herético. E assim muitos epilépticos morreram na fogueira e Galileu só dela escapou, porque admitiu que o sol andava e a terra estava parada (e «contudo ela move-se» – teria dito para si próprio).

Em 1859, o Papa Pio IX extinguiu a Inquisição por contrária a toda a mensagem evangélica, uma contradição da Igreja consigo própria, um abcesso no seu corpo inoculado pela ignorância e pela violência que caracterizavam as sociedades de então e de que eram oriundos os inquisidores. Mas a mancha ficou para sempre na História da Igreja que dela se tem penitenciado vezes sem conta.

Essa mancha é hoje o prato forte e saboroso de muitos anti-clericais das mais diversas origens, desde ateus profissionais, passando por agnósticos impiedosos, até crentes de outras crenças.

Estão no seu direito e, à luz dos valores de hoje (se a história pode ser vista assim) até terão alguma razão.

Só que aquilo a que a Inquisição chamava a «verdade» chama-se hoje, em Democracia, «politicamente correcto» – a nova ortodoxia. E aquilo a que a Inquisição chamava «heresia» chama-se hoje «politicamente incorrecto» – a nova heterodoxia.

Isto é: a Inquisição está de volta.

Com hábeis adaptações ao século XXI. Os novos inquisidores já não usam o longo hábito preto e branco – apenas colarinho desabotoado. E nas fogueiras usam combustível mais sofisticado. Mas tão zelosos e prosélitos quanto os antigos, vasculham, farejam, pesquisam, enfim, inquirem heresias que descobrem em tudo quanto é «politicamente incorrecto». Como, por exemplo, acreditar que a vida humana, intra ou extra uterina, é inviolável.

E depois condenam. Condenam a morrer nas fogueiras do ridículo, ou do achincalhamento, ou da ironia bacoca, ou mesmo do insulto e calúnia. Excepcionalmente, são misericordiosos e usam a fogueira do silêncio, um silêncio ruidoso. Mas sempre tudo na praça pública. Para exemplo. À moda antiga.

Curiosamente (ironias da História!) os novos inquisidores são, geralmente, os mais truculentos, acérrimos e ferozes críticos dos inquisidores de antanho!!!



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