Espaço do Diário do Minho

Para onde levam as vacinas?

1 Abr 2021
M. Moura Pacheco

Já mais do que uma vez aqui verberei o mau, o péssimo português que se escreve e se fala na comunicação social indígena – escrita, radiofónica ou televisiva. Já aqui publiquei mesmo uma extensa lista dos erros mais clamorosos e frequentes. Não vou repeti-la agora. Mas vou repetir o tema – muito embora correndo o risco de ser maçador.

A isso me leva a torrente de constantes atentados à língua materna que continuamente ouço e leio nos noticiários das estações televisivas – sejam privadas ou pública. E é esta última que –como cidadão e como cultor da língua materna – mais me desgosta, me indigna e me… irrita. Não é que desculpe as outras, as privadas. Todas são responsáveis por este atentado ao património cultural de um país (o nosso) que é a sua língua. Mas a televisão pública, mais do que todas. Porque é do Estado a quem incumbe a preservação e defesa do nosso património cultural – material ou imaterial. Do mesmo Estado que tem um Governo com um Ministério da Cultura e outro da Educação.

É essa cultura e essa educação que as estações de televisão – todas – têm obrigação de promover e não de «despromover», enchendo os olhos e os ouvidos dos telespectadores de «pontapés na gramática» que se vão fixando na memória de todos, mas, sobretudo, na memória dos mais jovens.

Só nos últimos dias, fui presenteado com estas «pérolas» que, obviamente, não figuravam na minha anterior lista:

– os hospitais privados já podem vacinarem os seus próprios médicos;

– as bilhas de Nisa vão ser consideradas património imaterial (já não sei se da humanidade ou de Portugal);

– Portugal é um dos únicos países que não vacina quem já teve Covid;

– a D.G.S. aguarda por uma decisão da Agência Europeia do Medicamento (aliás todos aguardam por alguma coisa);

– e, finalmente, a expressão mais usada, mais repetida, mais insistida e… mais surpreendente – o Presidente (ou o Primeiro Ministro ou outra pessoa qualquer) já levou a vacina; muitas pessoas, muitos lares de idosos, etc. já levaram a vacina.

Não me surpreende muito que os «redactores» das televisões não saibam usar os tempos dos verbos; nem as respectivas regências. Mas que uma bilha possa ser imaterial já me causa alguma dúvida. E mais ainda que possa haver vários únicos (único quer dizer só um e mais nenhum). Mas o que verdadeiramente, verdadeiramente me surpreende é que os vacinados possam levar as vacinas para onde quer que seja. E então o Presidente? E o Primeiro Ministro? Para onde levaram eles as vacinas que tanta falta fazem?

Aquela gente que redige as notícias televisivas será toda semi-analfabeta? Nenhuma das estações tem dinheiro para pagar a quem domine bem a língua em que são redigidas as notícias que os apresentadores lêem ou as que são passadas em rodapé? Ou em que são escritos os comentários em voz «off»?

Já havia o português de Portugal; o português do Brasil; o português de Angola; o português de Moçambique; o de Cabo Verde; o de S. Tomé; o da Guiné; e mesmo o de Timor. Todos frutos de uma raiz comum bem cultivada, ou seja, todos uma forma de cultura.

Agora há mais o português televisivo – uma de anti-cultura (ou de português calino – para quem preferir linguagem castiça e menos erudita).



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