Espaço do Diário do Minho

Deixar rasto

7 Abr 2021
Isabel Vasco Costa

Como se deixa rasto? Será por se ser famoso, por aparecer nos meios de comunicação que se deixa rasto? Não é essa a ideia que S. Josemaria quis transmitir no ponto n.º1 do capítulo a que chamou “Carácter” no seu conhecido livro “Caminho”. Aqui o copio na íntegra:

Que a tua vida não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor.

Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. – E incendeia todos os caminhos da Terra com o fogo de Cristo que levas no coração.”

Nota-se que esta mensagem não está dirigida a artistas, cientistas ou políticos notáveis. Está dirigida a todas as pessoas, a si, a mim, a pessoas correntes que incluem também aquelas. A pessoas que nascem, trabalham, fundam uma família e morrem. Como podem estas pessoas, anónimas ou não, deixar rasto? O Papa Francisco deu-nos boas orientações ao proclamar o Ano de S. José (de 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021) e o Ano da Família (de 19 de março de 2021 a 19 de março de 2022).

De facto, S. José não foi uma pessoa “importante”, mas deixou um rasto que é visível e irá permanecer pelos séculos. O mesmo podemos afirmar da família, uma realidade que deixa rasto desde que o Homem existe; uma realidade com futuro que continuará a deixar rasto.

Os filhos serão, em parte, o rasto, as pegadas que os pais deixam ao passarem pela vida. Quem deseja deixar um rasto de eternidade procura introduzir o que é eterno na sua vida: Deus. Quem deseja deixar um rasto de verdade e coerência na sua vida, procura viver na verdade e na coerência. É certo que deixar rasto cansa. É preciso “caminhar” e avançar no caminho. Quanto mais se avançar, maior o rasto. Começa-se, com os passos pequenos e pouco profundos das crianças; continua-se com pegadas cada vez mais fundas e afastadas; termina-se com passos arrastados pela idade, mas acompanhados de novos rastos que tendem a sulcar todo o orbe.

Deixa rasto quem é capaz de se responsabilizar, isto é, quem cumpre com os compromissos tomados. Quem é responsável e não abandona o seu projeto até o terminar. Pode tropeçar e quase cair, mas esforça-se por se equilibrar, apoiando-se, porventura, num braço amigo. Pode chegar a cair, mas levanta-se, limpa e desinfeta as feridas, resiste à dor e continua a avançar. Os seus exemplos – de trabalho, resistência ao sofrimento, prudência na preparação e no agir, humildade e compreensão no relacionamento com os outros – deixam rasto.

O verdadeiro rasto não é fruto da ambição ou do prazer, mas do amor. E este é eterno, é a única obra permanente que permanece visível, embora não assinada.



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