Espaço do Diário do Minho

As fardas

8 Abr 2021
M. Moura Pacheco

Parece que há para aí quem muito se admire por ver o vice-almirante Gouveia e Melo sempre fardado (com farda de trabalho) quando aparece a dar-nos conta da marcha da vacinação.

Este espanto tem que ver com modas. Sim, com modas. Por estranho que pareça, com as mesmas modas que mandam subir ou descer as bainhas das saias das mulheres ou das calças dos homens.

Quando eu era adolescente, e mesmo depois quando jovem, a moda era a farda. Quem tinha direito a ela, usava-a. Orgulhosamente. (Uso aqui o termo «farda» em sentido genérico. No sentido de traje formal que identifica quem o usa).

Os universitários que eram chamados para o serviço militar faziam questão de aparecer aos sábados e Domingos com a farda n.º 1 de aspirante ou de alferes logo que a isso tivessem direito. O que dava muita «saída» – dizia-se – no mundo feminino. Creio que foi a guerra do Ultramar que abreviou esta vaidade.

Os polícias e guarda republicana iam e vinham para e do seu trabalho devidamente fardados e, por isso, tinham direito a andar «de borla» nos transportes públicos. Exactamente o mesmo acontecia com os bombeiros municipais. Os contínuos do meu Liceu usavam, de inverno, uma bonita farda azul-marinho com reluzentes botões de latão; de verão, a farda era cinza-clara. Nos Liceus femininos, as cores e os botões mantinham-se e só a calça e o casaco eram substituídos por uma bata. E o que digo dos Liceus, posso dizer de quase todas as repartições públicas. E nós, alunos, quando chegávamos à Universidade de Coimbra, envergávamos a nossa capa-e-batina, que era o fato de trabalho diário, que não distinguia o rico do pobre e durava, no fio, até ao fim do curso (e que as Universidades de Lisboa e do Porto copiaram logo que nasceram). Finalmente os padres timbravam no uso da sua batina ou, no mínimo, do seu cabeção.

Lentamente, tudo isto caiu em desuso (ou passou de moda). E todos agora parecem ter vergonha de serem quem são.

A capa-e-batina (que agora se chama «traje académico») deixou de ser uma roupa de trabalho para passar a ser uma fatiota cara que meninos ricos usam, ao longo do curso, numa dúzia de dias festivos. Os militares, polícias e guardas vão para o trabalho «à paisana» e dele assim regressam. Farda só no quartel ou na esquadra. Os contínuos dos serviços públicos nem no trabalho se fardam. E os padres vestem-se como leigos e paramentam-se para celebrações litúrgicas… (E os que usam gravata, não a sabem usar. E os militares também não).

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (e as modas) e, por isso, hoje se estranha que um marinheiro, a prestar um relevantíssimo serviço público ao seu país, apareça fardado daquilo que é. Ele e os seus companheiros. Não sei se orgulhosamente mas, com certeza, briosamente. Porque o traje que usam é um traje de trabalho que é uma farda de combate. E o trabalho deles é um combate. Que assumem. Sem inibições nem complexos.



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