Espaço do Diário do Minho

O esquecimento de Deus

8 Abr 2021
Silva Araújo

1. Alexander Solzhenitsyn (1918-2008) é um nome que me diz muito desde que há décadas li «O Arquipélago Gulag», um livro onde mostra como funcionavam os campos de concentração e trabalhos forçados da ex-União Soviética, no tempo de Estaline.

Nascido na Rússia, Solzhenitsyn estudou Matemática na Universidade Estatal de Rostov, cursando ao mesmo tempo, por correspondência, no Instituto de Filosofia, Literatura e História de Moscovo. Participou na Segunda Guerra Mundial como comandante de uma companhia de artilharia do Exército Soviético obtendo a patente de capitão e sendo condecorado em duas ocasiões.

Por fazer alusões críticas a Estaline em correspondência a um amigo sofreu oito anos num dos referidos campos de trabalhos forçados. O que viveu e testemunhou levou-o a escrever «O Arquipélago Gulag». Arquipélago porque a União Soviética tinha mais de 100 locais onde acontecia a repressão.

Desiludido do marxismo-leninismo, aos 30 anos regressou à experiência de fé, que o acompanhou na infância, passados 20 anos de ausência de prática cristã.

Exilado nos Estados Unidos da América do Norte durante vinte anos, regressou à Rússia em 27 de maio de 1994. Faleceu em Moscovo em 3 de agosto de 2008.

Como escritor de renome internacional foram-lhe atribuídos o Nobel da Literatura em 1970 e em 1983 o Prémio Templeton, um prémio similar ao Nobel para a religião que distingue a dimensão religiosa na vida.

2. Em maio de 1983, no discurso de aceitação do prémio Templeton, declarou: “Mais de meio século atrás, quando eu ainda era uma criança, lembro-me de ouvir um número de pessoas mais velhas oferecerem a seguinte explicação para os grandes desastres que se abateram sobre a Rússia: ‘Os homens esqueceram-se de Deus; é por isso que tudo isso aconteceu’.

Desde então, tenho passado quase 50 anos a estudar a história da nossa revolução. Durante esse processo li centenas de livros, colecionei centenas de testemunhos pessoais e contribuí com oito volumes de minha própria lavra no esforço de transpor o entulho deixado por aquele levante.

Mas se hoje me pedissem para formular da maneira mais concisa possível a causa principal da perniciosa revolução que deu cabo de mais de 60 milhões de compatriotas, não poderia fazê-lo de modo mais preciso do que repetir: ‘Os homens esqueceram-se de Deus; é por isso que tudo isso aconteceu'”.

3. Ao contrário do que às vezes se ouve, as tragédias que enlutaram a humanidade não foram castigo de Deus, mas, penso, consequência do esquecimento de Deus. Do mau uso da liberdade dos homens. Do abandono do Deus-Amor. Porque é isso o que Deus é: amor. Lembrou-o há pouco o Papa Francisco na sua viagem ao Iraque. É blasfemo invocar o nome de Deus para justificar qualquer forma de violência.

O livro do Génesis diz que Deus criou o par humano e colocou-o num jardim. Era vontade de Deus que o homem aí permanecesse, para o que devia cumprir certas regras. O homem transgrediu-as, quis ser dono de si mesmo, e lá se foi o jardim. Fez de si um Pedro Sem, como se lê num lindo poema de Miguel Torga (Lamentação). Algo semelhante ao que acontece hoje com o desrespeito pela Natureza.

4. Vivemos numa sociedade que põe Deus de lado. E a sociedade sem Deus, a história o demonstra, é uma sociedade contra o homem. É a sociedade dos campos de concentração e trabalhos foçados, quer se chamem Auschwitz Birkenau quer Gulag. É a sociedade do salve-se quem puder e do vale tudo para atingir os fins. Da exploração do homem pelo homem. Da «justiça» que discrimina os ricos dos pobres. Das várias formas de corrupção. Das prisões arbitrárias. Do predomínio do mais forte. Dos senhores e dos escravos. Do deus-lucro e do homem-máquina.

É imperioso o regresso a Deus. Ao Deus-Amor, que a outro não presto culto.



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