Espaço do Diário do Minho

Uma questão de números

11 Abr 2021
Paulo Sousa

Os cidadãos merecem respeito. Mais do que isso: merecem ser bem esclarecidos. Quer os números que caracterizam a pandemia, quer os alegados efeitos negativos das vacinas, são uma tômbola para a perceção pública que afeta o dever e o direito do esclarecimento cabal.

O que está em causa não são os números, são as regras de comunicação que ninguém respeita; é uma aparente fábula em que todos mergulham num aparente entendimento, mas longe das necessidades reais de quem recebe e assimila a informação.

O que se está em Portugal e um pouco por toda a Europa, assemelha-se a uma verborreia inclassificável, onde todos tentam falar mais alto, sem cuidarem do interesse real dos cidadãos. São tão maus a comunicarem, que de cada vez que falam, ou julgam comunicar, estão só, a criar mais confusão e a contribuir para uma nefasta visão sobre o problema de fundo: a realidade.

Basta ler a famosa estatística que nos invade diariamente, para chegar à simples conclusão que os nossos especialistas, consagrados como cientistas de dados, brincam ao “esconde esconde” inter pares, como se estivessem no recreio da escola. Têm razão os autarcas, como é o caso do presidente da Câmara de Moura que classificou de “injusta” a fórmula de cálculo da taxa de incidência da Covid-19. Sabem porquê? – É a famosa estatística que determina que se o leitor tiver um frango para dividir entre quatro pessoas, todos comem um quarto, ou se quiserem, 25 por cento do galináceo. Neste caso, o concelho de Moura teve 65 novos casos entre 17 e 30 de Março, mas para a Estatística, o “desgraçado” teve uma incidência de 473 casos por 100 mil habitantes. A estatística é tão perigosa neste caso,que oficialmente e para os efeitos oficiais, os recuperados não contam. Pensem nisto: “Bastam 16 casos positivos num período de referência para nós estarmos no amarelo cima dos 120 novos casos por 100 mil habitantes e bastam 33 para estarmos no vermelho [acima dos 240”. O exemplo pode, facilmente, multiplicar-se por esse país fora, o que deve, com urgência, levar-nos à questão primária: qual o interesse de publicar uma estatística, que por muito interesse que tenha para os epidemiologistas, não corresponde à realidade dos factos com que o cidadão comum tem de lidar no seu quotidiano? Começa aqui e agrava-se o desentendimento entre as comadres, que escolhem diferentes fórmulas para defenderem a sua dama.

Em Ribeira de Pena, o exemplo é, ainda, mais flagrante: “O município com 6.016 inscritos no centro de saúde e com oito pessoas contaminadas, fica no vermelho. “É injusto”, diz o presidente da Câmara e com toda a razão. Perguntam os eleitores: porquê? – Junto-me à dúvida, pensando que a tropelia jocosa tem sido determinante para a “guerra de surdos” entre os cientistas, pouco preocupados com o alcance e o impacto dos números nas pessoas, apesar de manifestarem publicamente o contrário. A preocupação desta artigo não é de apontar os culpados, mas de chamar a atenção para as incongruências da análise de risco e para a fatalidade das suas conclusões que não são coincidentes. Nesta matéria estamos todos mal; desde logo o Presidente da República, o Primeiro Ministro, a Ministra da Saúde e a Diretora Geral de Saúde, a par do presidente do Infarmed. Todos juntos, demonstraram, até agora, inabilidade para comunicarem factos. Neste capítulo, são tão culpados como os cientistas que se não se entendem, deixando ao cuidado dos cidadãos que interpretem os números, exigindo, em simultâneo, m comportamento responsável. A repercussão é fatal e podia ser evitada se houvesse clareza e simplicidade na linguagem e na ação subsequente. No mundo em que vivemos, depende cada vez mais de números e de interpretações erróneas, as responsabilidades dos agentes políticos, adquirem uma obrigação superlativa na avaliação dos factos.

Na génese destes fracassos, reside uma involuntária incapacidade de distinguir informação de comunicação, o que não deixa de ser um paradoxo politicamente falando. Mais ainda: tratando-se de um problema de saúde pública, exige-se uma terapia sem paliativos; uma destímida capacidade para comunicar de forma crua, numa linguagem entendível dos 7 aos 77 e um conjunto de atributos singulares que não se resolvem com boa vontade. É uma falácia e um crime de lesa cidadania que nos deve fazer refletir sobre o valor das nossas ações e o impacto que as posições politicas devem ter como determinantes para o exercício responsável da cidadania.



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