Espaço do Diário do Minho

Apanhados 18

14 Abr 2021
Dinis Salgado

De alguém que mete o nariz onde não é chamado fazendo algo para que não tem preparação daí resultando asneira grossa, o povo costuma dizer quem te manda sapateiro tocar rabecão e aconselhando a que não vá o sapateiro além da sua chinela; igualmente de quem sobre matéria que não domina ou ignora, mas de peito feito, arrota postas de pescada de autêntico sabichão, o povo afirma que não passa de um treinador de bancada e o que se deseja é cada macaco no seu galho.

Todavia, se esta caraterística fanfarrónica de ser português em nada prejudica o bem comum e a coisa não vai além de tertúlia de café e bate-papo de caserna ou se fica por ação agrícola caseira de plantação de batatas, tudo bem, tudo nos conformes; já o mesmo não acontece se tais procedimentos se aplicam à política ou à economia daí resultando públicas malfeitorias ou beliscões a esmo na imagem e prestígio de pessoas e instituições e a merecer evidente reprimenda.

Pois bem, estes tempos de confinamentos prolongados devido à pandemia do coronavírus SARS-COV 2 têm dado azo a que se ponha a escrita em dia e se faça aquilo que, há muito espera ser feito ou se aproveite para exercitação muscular ou neurológica; vai daí, ao fazer-se coisas que precisam de ser feitas, por escassez de jeito ou de diploma, muitas vezes se mete o pé na poça e mais valia estar quietinho.

E o caso, por exemplo, de alguns confinados que, cansados de nada fazerem ou de tudo já terem feito, munidos de serrote e tesoura de poda saem da toca e, vindos não se sabe de que galáxia, avançam para a rua armados em podadores públicos e encartados; e, depois, o resultado quase sempre vira fiasco, porque uma podada bem-feita não é tarefa de amadores e requer diploma, se mais não fora de uma qualquer escola ou ensaboadela nalgum workshops de artes agrícolas.

Ora, em determinadas zonas suburbanas da nossa augusta, barroca, bimilenar e dos Arcebispos cidade de Braga, havia espécies arbóreas de enormes guedelhas e, como tal, de pouca e honrosa ornamentação dada a sua caraterística biológica; e, até, acontece que, quando florescem, os seus exemplares exalam um odor agressivo e enxameiam os passeios de bagas abundantes e poluidoras que, caindo nos tejadilhos dos popós, obrigam a esforçada lavagem aos ditos cujos e nem sempre bem-sucedida.

É, então, que inesperadamente exercida foi uma ação de tosquia de tal jeito profunda em muitas delas, deixando-as esqueléticas, de braços decepados e nus erguidos aos céus; e esta ação capilar, pelo rasgo e acicate com que foi posta em marcha, traz-me à lembrança as eras de 60 e 70, aquando das incorporações militares a granel que garantiam mão-de-obra para a guerra do Ultramar, em que os mancebos recrutados, logo que davam entrada nos quartéis, submetidos eram à tortura da máquina zero nas suas cabecinhas; e a esta operação de capilaridade porque necessária, fosse por questões higiénicas, fosse por ablação de ocultas vaidades nas repas ou caracóis e dada a sua implacabilidade, nem o filho do sargento escapava.

Agora, facto consumado, fico a matutar a quem incumbe o tratamento destas árvores públicas – plantação, poda, remoção, adubamento – que adornam as ruas e caminhos das povoações e necessárias são ao equilíbrio ambiental, se às Juntas de Freguesia ou se à Câmara Municipal; todavia, a verdade é que ou por retaliação contra o mau aspeto dessas árvores ou por desrespeito e menosprezo para com o equilíbrio ecológico, a operação não é de aplaudir e, até, revela um enorme ato de broeirice ou cal hordice de quem o praticou, mormente se o fez sem autorização de quem de direito.

E, a juntar a este facto de tonsura desordenada e violenta, há ainda que condenar a atitude de alguns moradores da zona que abateram mesmo as árvores implantadas em frente às suas residências; e, fosse por questões de falta de gozo avantajado da paisagem, fosse por incómodos causados à ação de estacionamento dos popós, o certo é que, sendo estas árvores de interesse público e, obviamente, paisagístico e ambiental, esta não passa de uma atitude a merecer censura e recriminação das autoridades.

Assim, o que se deseja é que seja, de futuro, prestada por quem de direito – Junta de Freguesia ou Câmara Municipal – mais atenção e empenho às árvores que adornam as ruas, despoluem os ares e sustentam o ambiente, porque simplesmente plantá-las e votá-las ao abandono e à mercê de serrotes e tesouras da poda da populaça dá no que se vê e não passa de um mau serviço prestado à comunidade e ao ambiente.

Então, até de hoje a oito.



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