Espaço do Diário do Minho

“Iniquidades”

19 Abr 2021
Narciso Mendes

e existe um dado que não podemos ignorar é o de continuamos a ser um país pobre, periférico, gastador e sem rumo. Ou como afirmara, em dado momento da história, Júlio César: “há nos confins da Ibéria um povo que não se governa nem se deixa governar”. Porém, se o Imperador vivo fosse admirado ficaria quando, a par disso, visse uma casta desse mesmo povo, a governar-se à grande. Enquanto o restante, pena na pobreza e se endivida cada vez mais. Isto, quando fora dito à exaustão pelos revolucionários do 25 de Abril de 1974, cujo 47.º aniversário se aproxima, que desmontariam a tese do romano.

Portugueses que teriam tudo para viverem bem e felizes, dentro de um território com enormes potencialidades: num clima ameno e solarengo para se desenvolver; uma costa marítima invejável; um solo rico, propício à florestação e aos mais variados cultivos agrícolas em ar, por enquanto, respirável; uma paisagem magnífica por entre praias, vales e montes, quer no continente ou nas ilhas, bem como mão-de-obra humana suficiente para trabalhar e, deste, retirar um salário justo, não fossem as “iniquidades” subjacentes.

Porém, roça o escândalo a forma como é distribuída a riqueza. Sempre pelas mesmas caras de há décadas. E qualquer cidadão, hoje, no desemprego, ou sem rendimento decente, ao ver-se na eminência de recorrer às instituições caritativas de voluntariado – quer da Igreja Católica ou aos Bancos Alimentares contra a fome – sente-se a viver numa terceira República desgraçada, corrupta e iníqua.

Com efeito, é de considerarmos “iniquidades” os altos salários atribuídos aos administradores da EDP, uma vez que quem paga a energia mais cara da Europa, IVA e taxas, são os Lusitanos. Em que “CEO”, António Mexia, acaba de arrebatar 1M€, da caução perdoada por Ivo Rosa, a que juntará 2,3 M€ do seu último ano á frente destinos da empresa. E, ainda, mais 800.000 €, ao ano, por motivos de concorrência, ou seja, informação privilegiada, o que poderá atingir cerca de 2,6M€ até 2023.

Mas não só. É à volta de Mexia que surge uma constelação de estrelas que só brilham perante outros escandalosos e imorais salários. Assim sendo, o que mais resplandece é o de Eduardo Catroga, Presidente do Conselho de Supervisão, que nas suas anteriores funções já recebia mais de 490.000€ euros, por cada ano, passa a auferir 515.000€, durante o próximo triénio. Enquanto as outras “estrelas”, (só) recebem 480.000€, ao ano, fora o resto.

Entretanto, novas empresas vêm sendo criadas para explorarem as energias limpas, tais como o hidrogénio, lítio e outras, das quais se esperam benefícios para a economia portuguesa. Sendo, desta feita, que uma nova “iniquidade” surge: a de João Manso Neto que, desertado da EDP, foi para a Altri Energias Renováveis assumir o cargo de Presidente executivo. Aí, aufere qualquer coisa como, 560.000€, em 12 meses, mais benesses. A que poderá juntar a caução de 1M€, relativa aos desonestos berbicachos deixados na EDP, que o polémico juiz lhe perdoou.

Macacos me mordam, se estes valores – muito além dos do Presidente da República e do Primeiro-ministro – se justificam! É que nestas empresas de energia, o que dita os seus exorbitantes lucros são os preços. E sempre que aqueles descem, logo surge o aumento do tarifário e rendas a pagar pelos consumidores. Pois, estes, não têm alternativa, a não ser a de iluminarem as trevas com a velhinha candeia, aquecerem-se, cozinharem a lenha.

Eu quero lá saber se é a comissão de vencimentos presidida pelo chinês Yang Ya, representante da chinesa Three Gorge, que paga estas brutalidades remuneratórias! O que me interessa é desproporção em relação aos rendimentos da maioria dos portugueses, alguns deles de autêntica miséria, assim como as reformas-esmola com que são obrigados a sobreviver, deixando-os no limiar da pobreza. Ou será que é com estas “iniquidades” que se está a cumprir o Abril da Justiça social, igualdade, fraternidade e do povo é quem mais ordena?



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