Espaço do Diário do Minho

No mês do Ramadão…

19 Abr 2021
P. João Alberto Correia

Num tempo em que se valoriza o diálogo inter-religioso e sendo o Islamismo uma das três religiões abraâmicas (as outras duas são o Judaísmo e o Cristianismo), não deve passar-nos despercebido o Ramadão em curso (13 de abril a 12 de maio). Trata-se de um dos pilares do Islão, a par de mais quatro: a fé (rezar e aceitar o credo), a oração (rezar cinco vezes ao dia, voltado para Meca), a caridade (dar dinheiro aos necessitados) e a peregrinação (ir a Meca, pelo menos uma vez na vida, se houver condições físicas para tal).

O termo “Ramadão” tem a sua origem na palavra árabe “ramida” que significa “ser ardente”, “calor severo”, “terra queimada”. O nome parece derivar do facto de o primeiro jejum, o de Maomé, ter acontecido num mês muito quente e de, em sentido figurado, remeter para o ritual de queimar os pecados, tal como o sol queima a terra. Os muçulmanos acreditam que foi durante este mês que os conteúdos do Corão foram revelados a Maomé.

Sendo lunar o calendário islâmico, o Ramadão pode acontecer em qualquer época do nosso ano solar, sempre com a duração de 29 ou 30 dias. Começa quando se apresenta a lua nova do final do mês de Shaban, o oitavo do calendário, e termina quando se avista a lua nova seguinte, assinalando o início do décimo mês (Shawwal).

Nome do nono mês do calendário islâmico, o Ramadão designa sobretudo o jejum ritual que nele acontece: todos os dias, os muçulmanos abstêm-se de comer, beber, fumar e ter relações sexuais, desde o nascer até ao pôr do sol. Este jejum obrigatório apresenta-se como uma disciplina espiritual e de autocontrolo, em que os crentes procuram dominar as suas paixões e desejos. Destina-se a educar na espiritualidade, na humildade e na paciência; é um momento de gratidão a Deus pelas bênçãos concedidas (a privação favorece a valorização e o agradecimento do que se tem); e ainda um tempo de reconciliação (limpeza dos pecados, falhas e erros), de renovação da fé, da caridade, da fraternidade. Os muçulmanos são chamados a ler mais assiduamente o Corão, a frequentar mais a mesquita e a valorizar mais a família.

O jejum é obrigatório para todos quantos já chegaram à puberdade. A primeira vez que um jovem é autorizado pelos pais a jejuar constitui um momento importante que assinala a sua entrada na vida adulta. Estão dele dispensados os enfermos, as grávidas, as lactantes, as mulheres menstruadas e os idosos.

Apesar de não se comer durante o dia, duas são as refeições muito importantes, nos dias do Ramadão: o Su-Hoor, ainda de madrugada, antes do sol nascer, que substitui o pequeno almoço; o Iftar, no fim de cada dia, momento em que a família e os amigos se reúnem para a celebração da fé, seguida da oração da noite (taraweeh).

O momento mais importante do Ramadão ocorre entre os dias 26 e 27, com a celebração da Laylat al Kadr (“noite do decreto”), em que Maomé recebeu a primeira revelação do Corão. Por isso, os muçulmanos acreditam que os pedidos que fazem durante esse período são mais facilmente atendidos por Alá. Outra data relevante é o Eid al Fitr (“banquete do fim do jejum”), que ocorre quando se avista no céu a lua nova d o início do décimo mês. Os três primeiros dias do novo mês são marcados por: entrega de alimentos aos mais pobres, realização de banquetes, troca de presentes, vestir de roupas novas e gratidão a Deus.

O mês do Ramadão divide-se em três partes, igualmente importantes: os dez primeiros são os dias em que os muçulmanos procuram a misericórdia de Alá; entre os dias 11 e 20, buscam o seu perdão; nos últimos dez dias, procuram a sua proteção.

Apesar de, neste ano, coincidir com boa parte do nosso Tempo Pascal, o Ramadão apresenta evidentes semelhanças com a Quaresma cristã. Tradições religiosas distintas no enquadramento e na configuração, são semelhantes nos seus objetivos e expressões. Só o conhecimento e o respeito mútuos favorecem o diálogo e conferem crédito às diferentes religiões, chamadas a contribuir para a convivência pacífica entre os povos.



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