Espaço do Diário do Minho

O bom governante

27 Abr 2021
Luís Martins

Quando se fala dos que nos governam, quase sempre nos lembramos de Maquiavel, por causa da astúcia, manha e deslealdade dos que elegemos para nos representar que num momento nos prometem isto e aquilo, que consideramos importante, e no momento seguinte arranjam uma qualquer desculpa esfarrapada para não cumprirem. Apesar da descrença que se tem acumulado ao longo do tempo, acabamos por ir apostando num ou noutro para nos conduzir pelos caminhos da economia, da saúde e das outras áreas da governação que em cada período definem para nós. Por maior identidade que possamos ter numa qualquer campanha eleitoral com uma força partidária e, em concreto, com quem está ao seu comando, mais ou menos depressa constatamos que se escava um buraco entre o que é proclamado na fase de conquista do voto e as realizações posteriores. Tem sido sempre assim, independentemente dos governantes serem mais de direita ou mais de esquerda. Tivemos algum bom governante, designadamente, no período posterior à Revolução de Abril, que nos tenha deixado confiantes? Depois de eleitos, depressa nos temos dado conta de que os poderosos os impressionaram mais do que a generalidade da população e que os primeiros saíram a ganhar, enquanto os últimos, pobres ou mais ou menos remediados, não deixaram de chafurdar na lama ou continuaram a manter-se na cepa torta.

O bom governante respeitaria as promessas e faria tudo para praticar a justiça. Seria o alicerce firme e o estabilizador por excelência do edifício que é um povo e subverteria a ordem instituída na tradição de desrespeitar o conjunto dos cidadãos em benefício de interesses particulares. Não se importaria que o colocassem à prova porque não temeria que lhe encontrassem fragilidades de consistência, de seriedade, entre as suas palavras e as acções em prol dos representados. O bom governante faria tudo pelos seus subordinados e não se aproveitaria do cargo para conquistar mais poder e alcançar benesses para si ou para os mais chegados, amigos ou outros. Não se venderia a ninguém nem a nenhuma empresa, nem a qualquer movimento ou instituição. Não privilegiaria nenhum cidadão nem nenhuma entidade nem deixaria ficar ninguém para trás e seria criterioso na arrecadação das receitas para as distribuir por todos com bondade, justiça e equidade. De forma nenhuma se colocaria numa posição de mercenário, de subserviência ou negligência, mas de serviço atento e permanente, evitando investidas de interesses ideológicos, económicos e financeiros. Indigitado e nomeado, atenderia às capacidades e competências dos colaboradores segundo a sua valia e não segundo a sua doutrina, o seu grupo político ou a carta de recomendação que lhe apresentassem. Não se vangloriaria – a obra necessária e suficiente para o país e o serviço à sua população falariam por si – nem colocaria nenhum gabinete de marketing a vender a sua imagem e, muito menos, a fazer passar a ideia de realizações que efectivamente não fez.

Para o bom governante seria ponto de honra cumprir as promessas no seu mandato e não abandonar nenhuma logo ao primeiro perigo. Não faria como o mercenário que pratica qualquer maldade ou violência para agradar quem lhe encomenda um trabalho, não se importando se isso pode colidir com a segurança de alguém, deixando que os lobos despedacem ou dispersem quem quer que seja. O bom governante não se importaria de ficar ele próprio em perigo para defender os que tivesse a seu cuidado e protecção. Mais, não deixaria para trás nenhum dos seus subordinados e iria recuperar os que alguém tivesse dispersado. Se o rebanho se afastasse em debandada, por exemplo, pela abstenção na participação nos actos cívicos, faria com que os tresmalhados voltassem.

O bom governante seria um guia e criaria condições para que fossem supridos obstáculos e dificuldades, para que ninguém sentisse medo nem passasse por algum sobressalto. E exerceria o cargo com sabedoria e verdade, acariciando todos com ternura na medida das suas necessidades e lutando para que o povo não sofresse a acção de malfeitores, seguindo estes e julgando-os com justiça de acordo com a lei.



Mais de Luís Martins

Luís Martins - 15 Jun 2021

Em Outubro vamos ter eleições autárquicas, pelo que tanto os edis como os candidatos a sê-lo não prescindem de pedir votos para que saiam vencedores. Há-os mais ou menos refinados e os indiferentes às contingências do momento colectivo. “Não se pode deixar de cultivar um concerto ou outro evento apesar da pandemia”, dirão uns. “O […]

Luís Martins - 8 Jun 2021

A pergunta que se impõe é a seguinte: “onde tem estado Costa e os seus ministros?” Desta vez, como das anteriores, Costa responde: “os ministros e as ministras que havia disponíveis no país são o que são, como podia fazer melhor?” Por seu lado, quase em uníssono, os ministros e as ministras declaram: “é a […]

Luís Martins - 1 Jun 2021

Portugal não é um país de inimputáveis, mas que os há por cá, já não temos dúvidas. Hoje, mais do que antes, não é nenhum especialista da área da psicologia ou da psiquiatria que os define, mas os próprios que se apresentam como tal, com muita lata e falta de escrúpulos a rodos. A justiça […]


Scroll Up