Espaço do Diário do Minho

Os tempos e os modos da poda

4 Mai 2021
Luís Martins

Celebramos há pouco tempo duas datas importantes da nossa história mais recente: o dia da revolução e o dia do trabalhador. Recordamos Abril de 1974 e o 1.º de Maio do mesmo ano, marcas de memória que se não apagam pelas consequências que tiveram nas nossas vidas. Mudaram-se então as referências, começamos um caminho novo, um novo governo, com uns quantos meio anestesiados, outros nem tanto. Era o tempo da liberdade, da luta dos trabalhadores e da sua expressão nas ruas, como se não fazia no tempo anterior, da antiga senhora, como se dizia. Mais de 47 anos volvidos, como se diz na gíria de intervenção, a luta continua, mas mais branda, com alguns sossegados e acomodados e também muitos desiludidos. Questiona-se hoje se a democracia é de boa qualidade, se os ideais de Abril permanecem intactos, se a árvore que é o país já não acolhe ramos indesejáveis que lhe sugam a seiva que o faz crescer e desenvolver e se o seu governo tem cumprido e está a cumprir com o povo. E é aqui que entra o bom governante ou a falta dele, de que falava na semana passada, e também a importância da poda e de um podador a sério.

Mesmo não sendo agricultores, podemos sempre consultar um qualquer Seringador para verificar como os tempos e os modos de realizar esta actividade de corte dos ramos das árvores são fundamentais, não apenas para a sua preservação, como para o seu crescimento e desenvolvimento. Na edição de 2020 desta publicação – o confinamento a que temos estado sujeitos não me permitiu ainda adquirir a de 2021 – pode ler-se, a propósito, que para certas árvores “uma boa poda sanitária durante o inverno é conveniente para evitar o aparecimento de certas doenças e parasitas mais tarde” e que “o podador deve cortar a madeira que não lhe parecer sã”. Contudo, o processo exige cuidados preventivos ao longo do ano que se renovam nos seguintes. Ora, num país também se pode e deve aplicar o conselho.

O bom governante e o podador competente cruzam-se, complementam-se, são interdependentes. Pode mesmo dizer-se que o primeiro só será possível enquanto o segundo existir ou aquele tiver capacidades equivalentes ao último. O bom governante sabe que a maior riqueza de um país são as pessoas, pelo que nunca as trocará nem por jóias nem por tesouros, nem por coisa nenhuma. O podador profissional arrancará da árvore os ramos inúteis que estiverem a retirar-lhe o vigor. O bom governante será sempre o aprisco dos cidadãos, servindo-os com rectidão, dedicação permanente e muita prudência, ao contrário do que utiliza o cargo para se servir do mesmo, explorando o povo com impostos exorbitantes e desviando recursos para poderosos a quem paga mais do que o razoável pelas aquisições e serviços prestados, não controlando os inimigos, internos e externos, que fogem às suas responsabilidades de cidadania. O podador competente, além de cortar os ramos parasitas, sabe como encontrar um equilíbrio entre os demais ramos e acompanha com regularidade o seu desenvolvimento. O bom governante não se limita às obrigações mínimas, às que constam do diploma legal, afastando a água do capote quando alguma tempestade aparece, para evitar comprometer-se com algo que o possa prejudicar, mas é aquele que não faz contas ao seu sucesso político nem aos ganhos que possa arrecadar na eleição seguinte. O podador competente conhece os tempos e os modos da poda. Não é imprudente, mas tem consciência dos perigos, nomeadamente, os que advêm das doenças que possam atacar os ramos bons. Talvez possamos dizer que o bom governante é aquele a quem por vezes categorizamos de estadista. Mas, também o que é um podador consciente e responsável.

Não basta fazer uma revolução. É preciso fazer uma manutenção constante, atenta e competente, impedindo que ramos-ladrão tolham o desenvolvimento do todo colectivo. Os ramos corruptos e secos devem ser lançados fora para que os bons permaneçam irrigados com o melhor da cepa. E isso é tarefa de podador que só o bom governante sabe contratar. Os tempos e os modos de o fazer têm que ser respeitados para que os ramos bons não se tornem imperfeitos ou não sejam votados ao fracasso.



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