Espaço do Diário do Minho

Suspender o futebol

6 Mai 2021
João Gomes

Neste espaço, em artigos anteriores, abordámos por diversas vezes a beleza do futebol, as enormes emoções que oferece a indivíduos e famílias, as paixões que desperta em miúdos e graúdos, e, de um modo geral, as incríveis multidões que consigo arrasta.

No entanto, de forma lenta, mas inelutável, sinto que tudo se está a perder, muito por força deste «cancro» que se instalou no futebol português e que parece sem remédio capaz de o eliminar.

São frequentes os maus exemplos que, a avaliar pelas audiências, vão deliciando uma grande e preocupante franja de adeptos ávidos de confusão, controvérsia e obscuridade, exemplos que também alimentam sobremaneira os órgãos de comunicação social que os espremem até ao tutano.

Instalou-se sem apelo nem agravo a lógica do insulto, da agressividade e da «chico-espertice» no futebol, dentro e fora do campo. A maioria dos presidentes dos clubes comporta-se como se tivesse o poder absoluto, como se fosse alguém acima da lei, de tudo e de todos.

A permanência de determinados dirigentes no poder vai alimentando o atual sistema, que corrói o pouco que resta de credibilidade no futebol em terras lusas, ao mesmo tempo que deturpa qualquer desejo de meritocracia e de transparência.

As pressões sobre as arbitragens são cada vez maiores, tendo-se chegado a um ponto em que o objetivo de cada um é exercer uma pressão maior do que a do adversário, de forma mais insistente e contundente. Esta pressão manifesta-se depois no campo, através dos treinadores e demais elementos, ou nas capas dos jornais, ou nos programas desportivos, tendo como consequência, na maior parte das vezes, a violência – verbal/psicológica e até física.

É preciso notar que os adeptos também têm a sua quota parte de responsabilidade, pois são complacentes com esta podridão, desde que o seu clube seja mais beneficiado do que os demais – e não pode ser assim. É urgente mudar o estado de sítio que vivemos no futebol, nem que, para tal, se tenha de o suspender durante seis meses ou o tempo necessário para o reinventar.

Alterem-se os protagonistas, modifiquem-se os regulamentos e as punições, criem-se políticas eficazes de combate à violência, ajustem-se os modelos de governação, trabalhe-se sobre as preferências tradicionais dos portugueses (aversão à mudança e ao desconhecido), e procuremos acima de tudo um modelo de comunicação e de atuação que seja baseado na ética. Isto é, se a maioria quiser caminhar para alguma forma de credibilidade do futebol português. Pode ser que não seja essa a vontade.



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