Espaço do Diário do Minho

Encostos de ombro

11 Mai 2021
Luís Martins

Na última quinta-feira fui com a Lina ao Nova Arcada fazer algumas compras inadiáveis. Quando regressávamos ao parque de estacionamento confrontamo-nos com uma situação inusitada. No início do último lanço da passadeira rolante de acesso ao piso onde deixamos o carro, um rapazola fez uma ultrapassagem com encosto de ombro, como se diz na gíria futebolística, arrumando a Lina para fora da linha do lanço e preparava-se para fazer o mesmo comigo, mas não deixei. Fiz em parte como o cavalo – pena que só em parte! – e cruzei o carrinho de compras, impedindo-o de concretizar nova falta cívica, ao mesmo tempo que exigi veementemente que guardasse distância, coisa que o energúmeno não respeitou enquanto me qualificava de mal educado. Estou hoje em crer que um cavalo, com outra técnica, num gesto natural, mas especializado, tê-lo-ia obrigado a dobrar-se à realidade sanitária e aos conselhos de segurança promovidos pela autoridade de saúde do país e por inúmeros virulogistas.

Infelizmente, este não foi um caso isolado. A pandemia ainda não acabou, mas a obsessão de desafiar a realidade anda no comportamento de muitos. Muito embora a gravidade da situação, há quem se esteja a marimbar para os outros. E os rapazolas não ao encontramos só nas passadeiras rolantes. Também nas ruas mais movimentadas os olhamos de frente, nós com máscara e eles insistindo que têm o direito de fazerem o que lhes dá na real gana. Pudera que a nossa vida tivesse voltado ao normal! Mas, o tempo de manter as regras básicas de segurança vai ainda acompanhar-nos durante meses e precisamos, todos, de ser responsáveis. E exigir que os menos cautelosos ou os desafiadores da ordem sanitária ponham em perigo os demais.

O encosto de ombro, que no futebol é legal, apesar de poder colocar um adversário fora da jogada, contrasta com a obstrução que é sancionada na mesma modalidade desportiva. Mas, em vários outros jogos da vida em sociedade aquele é inadmissível, como no caso com que iniciei a crónica de hoje. Quanto à obstrução que promovi, considero-a um acto cívico. Não havendo nenhuma autoridade no local, nem sequer um elemento da segurança do estabelecimento, havia que responsabilizar o infractor, que não fui eu, logo eu que me senti ameaçado no interior de uma estrutura por alguém que, não tendo respeitado as regras básicas em vigor, também não respeitou a sinalização que lá existe a alertar para a distância de 2 metros a que deve manter-se cada um dos visitantes.

Há outros jogos da vida em sociedade, como disse, em que não é admissível o encosto de ombro. Atente-se, por exemplo, à situação desumana em que vivem muitos imigrantes que têm chegado ao país em sucessivas vagas para ocupar postos de trabalho temporário no sector agrícola. Uma indignidade praticada há muito e que já era bem conhecida pelas instâncias autárquicas e governamentais, ao que parece, que chegou ao conhecimento do cidadão normal nos últimos dias. Não fosse isso já uma cotovelada em quem chega desprotegido ao país ou aqui está de jornadas anteriores, o ministro Eduardo Cabrita ainda os empurrou intempestivamente para uma solução de recurso, num atropelo às normas constitucionais, com o intuito de disfarçar o descuido autárquico e governativo, submetendo os imigrantes a uma passagem pelas instalações da Zmar para, poucas horas depois, uns quantos trabalhadores serem instalados pelas empresas que lhes dão trabalho, empresas que também elas se têm dedicado a encostos de ombro inadmissíveis. Continuam por resolver, contudo, a maior parte das situações indignas de habitação conhecidas. Não fosse a pandemia e os imigrantes continuariam a ser atirados para um canto qualquer, sem que nenhuma instância superior arbitrasse o grave problema. Ser imigrante no nosso país não pode significar estar limitado no direito a condições de dignidade humana. Nenhum responsável tem direito a encostar o ombro para arrumar o assunto. A “falta de dignidade institucional”, como se referiu o presidente do CDS-PP ao caso, é um encosto de ombro grave que pode não estar tipificado em nenhuma lei, mas que deve ter consequências.



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