Espaço do Diário do Minho

“O rei dos instrumentos”

17 Mai 2021
P. João Alberto Correia

Dotar a Igreja Paroquial de Prado (Santa Maria) de um órgão de tubos, a bem do culto e do cultivo da música, era um sonho acalentado desde 2011. Após uma longa prospeção, a aquisição aconteceu! Foi a 24 de fevereiro de 2020, numa igreja protestante, em Lüdenscheid, na Alemanha. Trazido para Prado, o órgão foi aí montado e harmonizado.

É esse órgão que, no próximo fim de semana, vai ser apresentado à comunidade, em dois concertos (Sábado, dia 22, às 21h; e Domingo, dia 23, às 17h), a cargo do organista Daniel Ribeiro. Entre outras peças, executará a Tocata e Fuga em Ré Menor, de J. S. Bach (BWV 565), uma das mais famosas obras do repertório “o rei dos instrumentos”, como lhe chamou W. A. Mozart.

A palavra grega órganon – é daí que, pela via do latim (organum), deriva o termo português órgão – significa “instrumento”. O seu fabrico, a cargo dos organeiros, é uma ciência e uma arte. E tanto é assim que a UNESCO o considerou, em 2017, Património Cultural Imaterial da Humanidade. Ciência e arte é também o toque do órgão, a cargo dos organistas.

O órgão é um dos instrumentos musicais mais antigos da tradição musical do Ocidente. Usado pelos gregos e pelos romanos nos jogos, no circo e nos anfiteatros, pertence à família dos aerofones de teclas, é tocado por meio de um ou mais manuais (teclados) e de uma pedaleira (os pés também tocam!). O som é produzido pela passagem de ar, através de tubos sonoros de diversos tamanhos (os mais compridos e largos produzem sons graves; dos mais pequenos e estreitos saem os sons mais agudos), formatos e materiais (é isso que lhe dá variedade de timbres). Ao contrário do que acontece com o piano, o som de um tubo permanece constante, enquanto a tecla é premida e o respetivo registo se encontra aberto.

Os órgãos variam muito no tamanho, conforme o número de teclados, registos e tubos, uma variação que oscila entre os pequenos órgãos portativos e os grandes órgãos sinfónicos. Encontram-se sobretudo nas Igrejas de culto católico e protestante, mas também em teatros e salas de concerto, em escolas de música e mesmo em casas particulares (órgãos de estudo). O seu espectro sonoro é o mais amplo de todos os instrumentos, variando em altura (é extensa a sua tessitura) e em amplitude sonora (é muito variável o seu volume).

Todos os órgãos são compostos por quatro partes: pneumática (ventilador, fole e canais de vento), tubaria (tubos), mecânica (registos, teclados manuais e consola) e caixa (estrutura, habitualmente de madeira, que encerra o que até agora foi referido). A sua construção é a mais complexa de entre os instrumentos musicais, sendo mesmo, a par do relógio, uma das mais complexas criações do género humano.

A sua introdução nas Igrejas é tradicionalmente atribuída ao Papa Vitaliano (séc. VII). A Igreja Católica valoriza-o tanto que sugere a sua bênção e sobre ele se pronuncia: “Tenha-se em grande apreço, na Igreja latina, o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimónias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus” (Vaticano II, Sacrosantum Concilium, nº 120). E diz ainda: “exerce uma função de relevo: quer quando acompanha o canto quer quando toca sozinho, aumenta o esplendor dos ritos sagrados, contribui para o louvor divino, favorece a oração dos fiéis e eleva o seu espírito para Deus” (Celebração das bênçãos, nº 1052).

A arte musical usada nas celebrações litúrgicas tem como finalidade a glorificação de Deus e a santificação dos fiéis, pelas vias da estética, da cultura e da espiritualidade. Assim, “o som do órgão converte-se num sinal eminente do cântico novo que devemos cantar a Deus” (Celebração das bênçãos, nº 1057).

São três as razões fundamentais que nos levaram a fazer este investimento e que apresentamos, por ordem crescente de importância: engrandecer o património material e a estética da referida Igreja Paroquial; promover a cultura musical (concertos) e despertar o interesse pela aprendizagem da arte dos sons (aulas); contribuir para uma liturgia que melhor louve a Deus e conduza os fiéis a uma oração mais intensa (celebrações).

Dado que, pelas razões agora mesmo referidas, é o órgão que melhor cumpre os objetivos a que nos propomos, a aposta só poderia recair nele, o “rei dos instrumentos”.



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