Espaço do Diário do Minho

Desatinos de um governo perdido

18 Mai 2021
Luís Martins

O governo já viveu tempos complicados. Outros tempos complicados, melhor dizendo, que os de agora não estão melhores. Recuperou, entretanto, com a pandemia, embora tenha continuado a falhar no âmbito das decisões e na oportunidade. A explicação é que com a pandemia ficamos todos com medo – e quem não ficaria? – e não era, como não é ainda, altura de eleger uma alternativa. E, verdade se diga, também não existe. Safou-se aquele, por enquanto, com mais ou menos martelada, atrasos seguidos de outros, mentira sobre mentira, graças a ajudas importantes: a grande responsabilidade cívica da maior parte dos portugueses, o receio à mudança numa situação como a que se está a viver e a inabilidade da oposição política. Apesar da incoerência e da desorientação do governo que não soube prevenir nem planear como faria uma administração competente em múltiplas matérias. Aliás, de um modo geral, o governo só tem reagido, nunca se preocupando em antecipar. E se ao menos reage, muitas vezes fá-lo de forma atabalhoada e desatinada. Aconteceu inúmeras vezes, em assuntos mais ou menos graves, desde os incêndios desgovernados de Pedrógão até às questões dos imigrantes a trabalhar nas estufas de Odemira e da desorganização dos festejos da vitória do Sporting no campeonato de futebol, passando pelas questões do Novo Banco e do SEF, entre vários outros.

A imagem que tem passado do executivo não é a melhor para ser credível e qualquer Estado precisa de um governo credível. Na verdade, há bastante tempo que este evidencia fragilidades em termos de decisão e de imagem que, aliás, se têm agravado, deixando transparecer uma grande desorientação. Para António Costa, contudo, não tem havido assuntos mal sucedidos no governo, apesar os factos o desmentirem. Perante o que viu junto ao estádio de Alvalade e no Marquês de Pombal na noite em que o clube lisboeta chegou ao título de futebol, não posso deixar de pensar que vivemos num Estado sem governo. Bem sei que as pessoas que participaram nos festejos também são responsáveis por muito do que se passou, mas o governo devia ter preparado melhor a festa. Sim, a autoridade máxima da segurança tem pasta ministerial própria e assento no conselho de ministros. Mas, o planeamento é coisa que diz pouco ao executivo, insensatamente vezes demais, enganando-se os responsáveis governativos em não fazerem uso de um instrumento que a boa gestão aconselha. Nenhuma decisão mais ou menos estável, tão-só trapalhadas e soluções em cima do joelho. E isso, desacredita qualquer governo, para mais quando não se assumem os problemas, não são enfrentados com competência e não se faz uma reflexão sequer. Resolve-se com Costa a porta-voz governativo. E escuta-se a mesma lengalenga do ministro, numa narrativa em tom maior. É essa a estratégia. É com ela que Costa se aguenta em alta. Claro que se houvesse música diferente e da boa, as coisas não ficariam por isso mesmo.

No conjunto, o governo tem-nos mantido na ilusão de que já estamos no tal caminho que nos prometeu. Na realidade, continuamos no antigo ou num ainda pior e com uma outra diferença: antes, diziam-nos à bruta por onde íamos; hoje, mostram-nos simpaticamente a luz ao fundo do túnel, mas como estamos num deserto ou quase, o que vemos não é senão uma miragem.

No passado, a imagem de um governo queria-se positiva, decente, limpa de escolhos, mesmo que não se administrasse tão bem como se dizia a coisa pública. Hoje já não é assim. O que se vê nos dias que correm é um governo que não sente vergonha de nada, que aceita qualquer porcaria que os seus membros façam ou digam. E o chefe não se incomoda. Talvez porque frequentes vezes faz a mesma figura. Que moral tem para repreender algum dos seus ajudantes? Isso vai ter consequências no futuro e a primeira é que, se antes alguém arriscava votar com um olho fechado, da próxima vez ninguém o fará senão com os dois olhos bem abertos. Além do mais, como a obra de um ministro também é do primeiro responsável do executivo, sobretudo, quando este lhe põe o visto e a homologa, o que tem sido prática corrente, maior cuidado terá de haver.



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