Espaço do Diário do Minho

Em defesa do mundo rural

8 Jun 2021
J. M. Gonçalves de Oliveira

No último sábado, a Juntos Pelo Mundo Rural – Associação Ibérica de Defesa da Caça, Pesca, Tradições e Mundo Rural organizou, em Lisboa, uma manifestação em que participaram largas centenas de pessoas. Saída da praça do Marquês de Pombal, ordeiramente e cumprindo as normas sanitárias impostas pelas autoridades, dirigiu-se até à Assembleia da República expondo as suas reivindicações. Estas não são mais do que uma chamada de atenção contra as políticas do Governo que fragilizam e poem em causa, entre outras, atividades rurais como a agricultura, a tauromaquia, a caça e a pesca.

Confesso que ao tomar conhecimento de tal manifestação senti vontade de a ela me associar, tão justas e oportunas considero as reclamações apresentadas. Não o fazendo presencialmente, aqui estou a dar o meu contributo na defesa do mundo rural e das suas gentes.

Portugal, fruto de muitas vicissitudes e de um centralismo asfixiante, é hoje um país profundamente assimétrico. A desertificação de grandes áreas do interior, a par do rápido envelhecimento da sua população, está a condenar boa parte do nosso país a um território inóspito, num futuro não muito longínquo.

Reivindicar por medidas que promovam e defendam o mundo rural no sentido de inverter esta triste realidade, é um dever de todo o português que ame a sua pátria. Exigir políticas que protejam a agricultura, a floresta, a caça, a pesca, o turismo e outras atividades tradicionais, é um imperativo de quem anseia por um país mais coeso e socialmente mais equilibrado.

Ao longo das últimas décadas, por falta de medidas protetoras, assistiu-se a um abandono das terras. O mesmo se tem passado com a floresta que apenas é lembrada quando é pasto das chamas e causa de catástrofes como a originada pelos incêndios de 2017.

E o que dizer da caça e da pesca desportiva?

Atividades ancestrais, quer uma quer outra contribuem para o equilíbrio das espécies e são fundamentais para a preservação da biodiversidade.

Atualmente, se não fosse a caça, a população de javalis ou de raposas tornaria a vida de muitos agricultores num verdadeiro inferno, tão nefastas são as investidas dos primeiros em áreas cultivadas e as segundas na dizima de rebanhos e aves de capoeira.

O turismo em espaço rural é outra atividade capaz de gerar desenvolvimento económico e de contribuir, por si próprio e pelas múltiplas dinâmicas geradas na sua dependência, para a sustentabilidade da vida no campo. Um contributo importante para a diversificação dos dinamismos ligados à exploração agrícola, para o aumento do emprego, para a preservação do património, para a conservação da natureza, enfim, para o incremento do rendimento dos agricultores e uma forma simples de estancar o êxodo das populações mais jovens para a cidade.

O mesmo se poderá dizer da tauromaquia e de tudo o que gira à sua volta. Não sendo um apreciador de touradas, compreendo as implicações que a sua eventual proibição acarretaria. Simplesmente acabar com elas, seria um rude golpe num conjunto de atividades económicas relacionadas com o espetáculo taurino, como a criação de gado bovino e equino. Em diferente escala, seria como se de repente fosse proibido o abate de animais para consumo alimentar. Não será mais racional impor novas regras àquela arte secular de modo a suavizar o sofrimento dos touros, principal preocupação das associações de defesa dos animais?

As queixas de Luís Gusmão, presidente e porta-voz daquela associação defensora do mundo rural que promoveu a manifestação atrás referida, mexeram comigo. Aceito e compreendo a sua contestação às políticas proibicionistas tão na moda do politicamente correto e que fazem parte de uma certa agenda que mais não faz senão impor a sua vontade, muitas vezes ao arrepio da maioria.

O mundo rural não pode suportar mais ataques. Há que respeitar o seu modo de vida, os seus costumes e as suas tradições.

A liberdade de gostar ou não é para todos os cidadãos e não um apanágio de minorias ditas modernas ou mais esclarecidas.



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