Espaço do Diário do Minho

Mais «gestadores» que «gestores»

8 Jun 2021
João António Pinheiro Teixeira

As adversidades – incluindo as maiores catástrofes – costumam desencadear prolongados processos de transformação nas sociedades e nas pessoas.

Basta olhar para a conversão dos habitantes de Nínive, após o anúncio da destruição iminente (cf. Jn 3, 4). Ou para a transfiguração do (chamado) «filho pródigo» depois das provações que suportou (cf. Lc 15, 14).

É notório que a presente pandemia parece inaugurar a longa gestação de uma nova realidade.

Precisamos, neste sentido, de empreender uma «pastoral da mudança» e de não negligenciar alguma «mudança na pastoral».

No fundo, temos de ser mais «gestadores» do que «gestores»: mais «gestadores» daquilo que (ainda) nem sequer se prefigura do que «gestores» da mera conjuntura.

Mais do que gerir a (por muitos impacientemente desejada) retoma de eventos multitudinários e ruidosos – quase sempre desligados da vivência da fé –, é imperioso estar atento ao que pode estar a «gestar».

Os sinais são ambivalentes, uns mais encorajadores, outros mais preocupantes.

À saída dos sucessivos confinamentos, não se confirmaram as previsões de uma sociedade «desigrejada».

Mas, por outro lado, subsistem comportamentos inquietantes: relação intermitente com a comunidade; concepção dos sacramentos como actos predominantemente sociais; frequência da catequese a pensar sobretudo nas festas; reiterados pedidos de celebrações (só) para familiares e convidados; persistente resistência a qualquer proposta formativa, etc.

Em tudo isto, gastamos energias e palavras, nem sempre ouvidas e raramente acolhidas.

Nestas circunstâncias, faz bem perceber que Deus também age pelo silêncio.

É que – alerta Simone Weil – enquanto «as criaturas falam com sons, a palavra de Deus é silêncio».

Foi, de facto, no silêncio que o profeta reconheceu o Deus que lhe falava (cf. 1Rs 19, 12).

Sim, porque o silêncio não é a ausência de comunicação, mas a suprema subtileza – e a insuplantável beleza – da comunicação.

Como sugere Domenico Marronne, Deus somente permanece mudo para quem não sabe escutar.

Daí que fosse bom voltar à «experiência de Elias, que foge para o monte […], onde compreendeu quem era Deus: não aquele que faz ruído, vento impetuoso, tempestade, terramoto, mas brisa ligeira».

«Quem é capaz não só de gritar, mas também de escutar, entende» (Simone Weil). É claro que não é fácil, nomeadamente para quem faz da palavra a «ferramenta» principal da sua missão.

Acontece que Deus estende-nos a mão e tranquiliza-nos: «Não temas; Eu estou contigo» (Is 41, 10).

Eis a despontar, então, o imperativo maior para nós, padres, nestes tempos que oscilam entre sombras e clareiras.

Cabe-nos – no dizer de Domenico Marronne – «dar aos irmãos um alimento sólido, construindo comunidades que repartam o Evangelho […] e onde o padre não seja o gestor do sagrado, mas o irmão entre irmãos, um mendicante de luz como todos». Para que, em todos, brilhe a luz… que se chama Jesus!



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