Espaço do Diário do Minho

Guerra do Ultramar sem vencedores nem vencidos

9 Jun 2021
Dinis Salgado

Militarmente a guerra do Ultramar terminou sem vencedores nem vencidos, e, quando muito, a haver um vencedor seria o Movimento Militar do 25 de Abril mesmo que, na sua génese, não estivesse escrita a exigência do fim da guerra colonial, assim designada pelos seus opositores.

Agora, a partir do momento em que as forças políticas, através de ideologias de esquerda e extrema-esquerda, se infiltram e apropriam do movimento dos capitães, a contestação ao envio de tropas para a guerra avança e chega às frentes de combate, onde se começa a depor as armas e a confraternizar com o inimigo; e, a partir daqui, sem tiros mas na secretaria, se esboçam os acordos entre as duas partes beligerantes – os nossos militares e dirigentes politicos e os movimentos de libertação – que culminam no fim das hostilidades e da nossa retirada do Ultramar.

Pois bem, analisando com isenção e realismo o que no terreno se passava, a Guiné era a única possessão ultramarina onde o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) nos fazia uma oposição mais musculada e agressiva, devido à sua melhor preparação e mais avançado equipamento militar, pois em Angola e Moçambique a guerra estava controlada e longe do fim, até porque não esqueçamos que uma guerra de guerrilha como a que enfrentávamos, não tendo como na guerra convencional posições marcadas no terreno com rendições, avanços e recuos conquistas e derrotas – dificilmente se pode falar num fim de guerra com vencedores ou vencidos, porque o guerrilheiro vive oculto e apeado e em permanente deslocação no terreno.

Ora, com o 25 de Abril o grito de nem mais um soldado para a guerra eclodiu nos cais de Lisboa e pôs fim mais depressa que o esperado aos embarques; e, como consequência inevitável destes ecos, os soldados que atuavam nas três frentes da guerra depressa regressaram, pondo fim ao conflito armado, igualmente, se bem nos lembramos, os portugueses que viviam em Angola, Moçambique e Guiné, perante esta evidência, são obrigados a abandonar à pressa as suas vidas e bens, a fugir e a regressar à Pátria rotulados de Retornados, onde são acolhidos e se integram com muitas dificuldades e contestações, espoliados e abandonados que se sentiam ao verem ser entregues de mão beijada aos movimentos de libertação as possessões juntamente com os interesses económicos, culturais e sociais que ajudaram a construir.

Por isso, os militares que fizeram a guerra do Ultramar não têm de se sentir culpados de coisa nenhuma e muito menos ser humilhados e ofendidos com o que se passou, mormente com o inóspito e rápido fim da guerra e muito menos rotulados de fascistas, reacionários e colonialistas, como foram por certas forças políticas que dominaram o 25 de Abril; porque eles lutaram, sofreram e muitos milhares tombaram e vieram mutilados e psicologicamente afetados e estropiados no cumprimento do seu dever de fidelidade, verdade e lealdade para com a Pátria em defesa da terra, dos seus naturais e dos portugueses que nela viviam; e se há quem deva ter pejo e culpa são certas forças políticas que, desde o 25 de Abril de 1974, têm dificuldades e complexos em reconhecer e, muito mais, em respeitar, premiar e louvar o cumprimento do dever patriótico de milhares de combatentes.

E, hoje, quarenta e sete anos passados após o fim da guerra, se olharmos para o que passa em Angola, Moçambique e Guiné em termos económicos culturais, sociais e humanos só podemos corar de vergonha e ter escrúpulos por abandonarmos e entregarmos estes povos à barbárie, à guerra fratricida, à fome e à miséria; e sobretudo; por vermos que estes três países não passam de ditaduras onde grassam a agressão, a desigualdade, a falta de liberdade e fraternidade.

E, assim, com a nossa fuga apressada, o virar de costas e a falta de cooperação e orientação política negados a esses pseudo-libertadores, mais não fomos do que meros sanguinários que às feras lançámos esses povos inocentes, em vez de os protegermos e defendermos dos, declaradamente, novos colonizadores.

Então, tenho fé que somente o futuro possa julgar com isenção e justiça essa página da nossa História de treze anos de guerra que, muitos autointitulados críticos e opinadores públicos de hoje ousam apagar e, até, denegrir, obviamente impedindo que as novas gerações, filhos, netos e bisnetos dos heroicos combatentes, dela retenham a justa e honrosa verdade. Então, até de hoje a oito.



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