Espaço do Diário do Minho

Outra vez os «rankings»

9 Jun 2021
M. Moura Pacheco

Foram, recentemente, publicados «rankings» actualizados sobre as escolas portuguesas. Como já vem sendo hábito, as escolas privadas aparecem claramente à frente das escolas públicas. E como também já é hábito, logo se levantou um coro de protestos contra os «rankings» – quer contra estes em si mesmos, quer contra a forma e critérios como são organizados pois – segundo os contestatários – falseariam a realidade escolar do país.

É claro que só contesta quem fica mal na fotografia. Estes, por sua vez, são politicamente apoiados não só à esquerda (inimiga de tudo quanto é privado) mas também – e curiosa e paradoxalmente – por alguma direita defensora da iniciativa privada.

Os argumentos são muitos e variados e as explicações também. Mas há uma, mais corrente, mais frequente e mais pacificamente aceite que pretende justificar a razão da desigualdade: a de que os colégios são de meninos ricos e as escolas públicas de meninos pobres.

Sem tempo nem espaço para mais, é deste argumento/explicação que me ocupo hoje e aqui.

Em primeiro lugar, usar a origem social dos alunos como único parâmetro explicativo, como se mais nada houvera a considerar, parece-me «sociologia de pacotilha».

Em segundo lugar a divisão da população escolar portuguesa em «ricos» e «pobres» é simplismo a mais.

Seja lá isso o que for, a classe dos «ricos» tem muitos graus. Seja lá isso o que for, a dos «pobres» também. Mas, no meio das duas, a sobredita divisão esqueceu a chamada «classe média». E esta não tem muitos graus – tem muitíssimos. E distribui os seus filhos, com mais homogeneidade ou menos, pela escola pública e pela privada.

E terceiro lugar há muitos «meninos ricos» na escola pública e muitos (sim, muitos) «meninos pobres» nas escolas privadas – sobretudo nos colégios pertencentes a ordens religiosas que recebem alunos de famílias carenciadas, gratuitamente nuns casos ou com grandes descontos noutros menos graves. E não consta que estes alunos obtenham piores notas do que os seus colegas «ricos» – antes pelo contrário. E nem os primeiros fazem as suas escolas subir nos «rankings», nem os segundos fazem descer as suas.

Em quarto lugar há muitas famílias das chamadas «classe frágil» e «classe média baixa» que, sendo economicamente pobres, são culturalmente ricas. Inversa e mais frequentemente, há famílias das classes «alta» e «média alta» economicamente ricas e culturalmente pobres.

Tudo isto torna particularmente frágil um parâmetro de avaliação/explicação dos «rankings» baseado na origem social dos alunos. Parâmetro a ter em atenção com certeza, deve, por essa mesma fragilidade, ser usado com cuidado, conta, peso e medida.

E – mesmo assim – não ser nunca tomado, de forma absoluta, como único. Nem sequer como principal. Há outros parâmetros, quiçá mais importantes, a ter em conta em paralelo com este.

Deles me ocuparei em próxima oportunidade.



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