Espaço do Diário do Minho

Um arraial de propaganda

15 Jun 2021
Luís Martins

Em Outubro vamos ter eleições autárquicas, pelo que tanto os edis como os candidatos a sê-lo não prescindem de pedir votos para que saiam vencedores. Há-os mais ou menos refinados e os indiferentes às contingências do momento colectivo. “Não se pode deixar de cultivar um concerto ou outro evento apesar da pandemia”, dirão uns. “O povo gosta de promessas mesmo que saiba ou desconfie não serem viáveis”, dirão outros. A política vive muito do pagode, de festas e arraiais. Não é que grandes comícios chamam sempre artistas, música e mesa farta?! Há que aproveitar a prerrogativa de permitir o que a lei proíbe e condiciona a tudo o resto. E no calor de uma campanha, o que importa um exagero ou uma promessa eleitoralista? O que importa o oportunismo político e a mentira ao cidadão menos elucidado? Os actores envolvidos dizem que não importa nada. A democracia tem destas coisas.

1. Prometer tudo e mais alguma coisa, sem ter como concretizar

O candidato socialista à Câmara de Braga tem soluções para tudo ou quase. Pelo tom, não parecem intenções, mas certezas. Todavia, se forem certezas, é por que existem estudos que fundamentam as propostas apresentadas e, sobre isso, é preciso que o senhor deputado Hugo Pires concretize, antes do voto dos bracarenses, o quando e se o financiamento das propostas está assegurado, para que dizer/anunciar possa rimar com fazer/concretizar. No entanto, eu acho que não o conseguirá fazer. Há muito irrealismo e falta de ponderação nas suas propostas. Para mais, o candidato a edil já foi vereador e no exercício dessa função não consta que tenha conjugado bem aqueles verbos. Por seu lado, o actual presidente, Ricardo Rio, também prometeu muito, continua a anunciar que vai cumprir…no terceiro e último mandato o que não cumpriu antes. Será? As intenções não chegam. Não têm chegado e os exemplos que conhecemos levam-nos a duvidar dos que se apresentam e nos dizem simplesmente que prometem isto ou aquilo. Podem até desejar muito, mas nós é que já não podemos ir na bola, apesar do risco de sermos injustos. Os anúncios apresentados nos outdoors de rotunda chegam a parecer-se com anúncios de campanhas de automóveis ou de aspiradores: quem publicita tem sempre solução. Por outro lado, não são oito, nem mesmo doze anos que nos fazem esquecer o passado de funções autárquicas de um candidato, como também o passar do tempo não faz esquecer as promessas que um presidente fez para chegar ao poder. Um acto eleitoral não pode ser um concurso de quem promete mais, por mais simpáticas, generosas e inspiradoras que sejam as ideias. Se fosse assim, Hugo Pires ganharia por KO ao actual edil, mas uma prova desta natureza não se ganha num qualquer ringue.

2. A opção pelo arraial híbrido

O mês de Junho é tempo de arraiais em memória dos chamados santos populares. E a tecnologia híbrida está na moda. Serve até o gosto de políticos, com Ricardo Rio a contornar o que a pandemia podia estragar na sua estratégia de cavalgar a onda que o está a levar, sem sobressaltos, ao terceiro mandato no município de Braga. O presidente da Edilidade bracarense, apesar do recente agravamento da situação pandémica no território de que é o maior responsável, não suspendeu – e não se espera que o faça, a atender a declarações do próprio de há dois ou três dias – o programa que estava previsto para a festa de São João que “regressa com 7 dias e em formato híbrido”. Não podia ser mais inoportuna a teimosia da realização de 3 concertos e de um congresso num enquadramento negativo e até perigoso da pandemia no concelho. Não colhe a justificação de que os eventos não são ilegais e até foram submetidos ao parecer da DGS. A situação desaconselha qualquer responsável a negligenciar riscos para a sua população. Que importa não cheirar a manjerico, quando está em causa um bem maior que é a saúde e a segurança das pessoas? Sabemos bem que um automóvel híbrido não precisa de parar para mudar de eléctrico para gasolina. Ninguém pode garantir que quem participar num qualquer dos eventos previstos se confinará depois em casa para vivenciar as festas em formato digital.



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