Vídeo: Celine Marie/Encontro Luso-Galaico (foto em destaque)

Vasto programa cultural promove música e língua que unem povos irmãos.

Luisa Teresa Ribeiro
17 Jul 2021

Valorizar a herança musical e linguística que une povos irmãos é o objetivo do Encontro Luso-Galaico, um vasto programa cultural que inclui oficinas criativas e espetáculos itinerantes por todos os concelhos do Alto Minho, a realização do Festival Sons do Noroeste em Braga e o lançamento de um cancioneiro de música tradicional do Minho e de um disco de fado no Porto.

Este vasto programa cultural é promovido pela Fundação Consuelo Vieira da Costa, Comunidade Intermunicipal do Alto Minho, Câmara Municipal de Braga e Associação para o Museu dos Transportes e Comunicações.

O arranque da programação acontece com o projeto “Trobadores e Soldadeiras”, que tem como objetivo a recolha e preservação do património imaterial, da música e da poesia popular do espaço linguístico galaico-português.

Neste âmbito, o Projeto Cardo e o Ideal Clube de Fado foram convidados para construírem projetos musicais com as populações de todos os municípios do Alto Minho, numa iniciativa que está a decorrer até ao fim do mês de agosto.

Em cada um dos municípios há oficinas de escrita para fado, em que as populações locais são desafiadas a experimentar dar largas ao seu talento em sessões orientadas por escritores e letristas e animadas por músicos e intérpretes de fado.

Paralelamente, estão a ser trabalhadas com onze coros locais musicações de letras dos cancioneiros galaico-portugueses, que são apresentadas nos espetéculos itinerantes, à semelhança do que acontece com as letras produzidas nas oficinas.

Como refere a presidente da Fundação Consuelo Vieira da Costa, Elvira Vieira, «de olhos postos no património galego-português, o Encontro Luso-Galaico propõe uma atenção renovada à herança cultural que liga as duas regiões, que se concretiza nas riquezas imateriais da música e da língua, mas promove um esforço criativo de expansão deste património, através da produção de novos temas e músicas».

Ao mesmo tempo, entre o canto coral e as oficinas de construção de letras para fado, as iniciativas deste projeto pretendem ser «um contributo para a ativação do potencial das nossas gentes e lugares, mas também um momento de encontro entre amadores e profissionais».

Segundo aquela responsável, o Encontro Luso-Galaico assume-se, assim, como «um projeto que ultrapassa os limites tradicionais da programação artística e musical, instituindo-se como um momento de intervenção no território e construção de público, fazendo uso da cultura e das nossas tradições para reforçar os vínculos entre os patrimónios material e imaterial, e os laços que unem as nossas comunidades».

O trabalho desenvolvido nos dez municípios do Alto Minho – assim como o Festival Sons do Noroeste, que decorre entre 26 e 29 de agosto, em Braga – vai ser «um contributo valioso» para a publicação de um cancioneiro. A apresentação deste Cancioneiro/SongBook de Música Tradicional do Minho e do Disco de Fado e Poesias do Minho vai marcar o final do Encontro Luso-galaico, a 7 de outubro, na Sala do Infante da Alfândega do Porto.

 

População convidada a escrever letras para Fado Tradicional

As oficinas de escrita criativa convidam a população do Alto Minho a escrever letras para Fado Tradicional, que depois são levadas ao palco por músicos profissionais nos concertos itinerantes.

O programador do Ideal Clube de Fado, Ricardo Pons, incentiva à participação nestas sessões, que funcionam quase em ambiente de tertúlia, estando abertas a todos, desde «poetas que queiram perceber a especificidade da escrita para fado até a quem nunca escreveu na vida».

O Ideal Fado é um grupo de artistas dedicado à preservação e divulgação do Fado Tradicional, ou seja, um conjunto de composições musicais que têm título para a música, mas não têm letra.

 

Datas

Depois de já terem passado por Valença, Melgaço, Arcos de Valdevez e Caminha, os concertos itinerantes do ciclo “Trobadores e Soldadeiras” realizam-se dia 18 de julho, às 18h00, no Jardim do Aquamuseu, em Vila Nova de Cerveira: 23 de julho, às 21h00, na Praça da República, em Ponte da Barca; 31 de Julho, às 21h00, no Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo; 9 de agosto, às 21h00, no Largo Visconde Mozelos, em Paredes de Coura; dia 10 de agosto, às 21h00, na Expolima, em Ponte de Lima; e 15 de agosto, na Praça Deu-la-Deu, em Monção.

 

Braga vai ouvir em agosto Sons do Noroeste

Braga recebe, de 26 a 29 de agosto, o Festival Sons do Noroeste, um evento que junta vozes e sonoridades galegas e portuguesas, explorando «dos sons mais tradicionais que transpiram do folclore regional, incluindo expressões modernas como o fado, até aos ritmos e abordagens mais contemporâneas».

No dia 26, às 21h00, Filipa Torres apresenta os temas do seu novo álbum, intitulado “Moldura”, inspirados nas melodias tradicionais portuguesas, e os galegos María Jorge (violino), Anaïs Barbier (voz e pandeireta) e Pedro Fariñas (guitarra) apresentam-se como Caldo, um projeto que divulga melodias tradicionais galegas integradas em novos contextos sonoros.

No dia seguinte, o programa inclui a apresentação de 1875, um projeto do coletivo “O Tempo Não Parou”, uma colaboração que privilegia a fusão entre vários estilos, desde a música clássica à música tradicional, passando pelo rock e o jazz, e Maria João, nome incontornável do jazz português.

O cartaz do terceiro dia é composto por Beatriz Martinez & Diego Langarika, dois reconhecidos músicos galegos com um repertório de música de inspiração tradicional galega, e o conceituado Daniel Pereira Cristo (Prémio Carlos Paredes 2018).

No último domingo de agosto, dia 29, a partir das 18h00, vão ser revelados ao público os resultados do projeto “Trobadores & Soldadeiras”. Os coros do Alto Minho apresentam as músicas criadas em colaboração com o Projeto Cardo e o Ideal Clube de Fado as novas letras criadas pelas gentes do Alto Minho. O evento termina com artistas que dispensam apresentações: a cantora galega Uxía e o fadista português Camané.

O co-programador do Sons do Noroeste, Daniel Pereira Cristo, destaca que iniciativas deste género são «fundamentais» para «manter as nossas tradições e raízes vivas». «É sempre um motivo de grande felicidade quando damos importância à nossa cultura. Nunca é demais fazer algo que nos lembre quem somos», afirma, sublinhando que as raízes são tão fortes que a língua e os costumes perduraram apesar da fronteira que nos separa.

O artista enfatiza a importância de preservar os instrumentos tradicionais, como o cavaquinho, a viola braguesa ou a gaita de foles, e o canto tradicional.

Em seu entender, o Minho precisa de uma escola nesta área, à semelhança da Escola de Música Folk e Tradicional, de Vigo.

 

Braga empenhada na promoção cultural

A vereadora da Cultura da Câmara de Braga revela que foi com «enorme gosto» que o Município se associou ao Encontro Luso-Galaico, especialmente numa altura em que a cidade é a Capital da Cultura do Eixo Atlântico.

Lídia Dias refere que o projeto «alinha-se com os objetivos do Município de promoção da cultura, das tradições e do património».

Esta responsável destaca que o Encontro Luso-Galaico é «um programa riquíssimo de valorização da língua, da música e do património deste território alargado e nesta relação de irmãos com a vizinha Galiza».

«Temos um rio que nos separa, mas uma língua que nos une. É uma relação muito vivida, que faz sentido. Não podemos estar de costas voltadas», afirma.

Em seu entender, o trabalho que está a ser devolvido no âmbito deste projeto «ficará para memória futura como um documento muito importante das raízes do Minho».

«Temos uma cultura riquíssima, que deve ser valorizada e preservada. É precisamente isto que este projeto vai fazer, permitindo que fiquem registos que perdurem na história e sejam também objeto de investigação e de criação de conhecimento», declara.

 

Projeto abre portas a novo capítulo na cooperação cultural

O presidente da Comunidade Intermunicipal do Alto Minho espera que o Encontro Luso-Galaico traga um novo impulso à cooperação no domínio cultural entre os dois lados da fronteira, promovendo o intercâmbio na literatura e nas artes.

«Este projeto pode não só dar voz e visibilidade a expressões artísticas que não são muito conhecidas, quer de um lado quer de outro da fronteira, como pode ser também ser uma experiência importante para nos ajudar a começar a construir um novo capítulo na cooperação no domínio das artes e das letras», afirma José Maria Costa.

O também presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo defende que começou por existir uma enorme cooperação na área cultural, que depois passou sobretudo para o domínio empresarial. Em seu entender, é necessário voltar às origens, valorizando a cooperação na música e nas letras.

Este responsável afirmou que a CIM Alto Minho se associou «com muito gosto» e «grande entusiasmo» ao Encontro Luso-Galaico, uma vez que a relação do Norte de Portugal com a Galiza existe e faz parte da vida das comunidades.

O Encontro Luso-Galaico foi apresentado recentemente nas instalações da Comunidade Intermunicipal, no palacete Villa Morais, em Ponte de Lima.

 




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