Espaço do Diário do Minho

A história deve ser real e imparcial ao tempo e à sua evolução

21 Jul 2021
BERNARDO REIS

Atravessa Portugal situações diversificadas em áreas ligadas a uma política populista, podendo caminhar para uma ditadura oral e escrita, com perversidade, em que os princípios e os valores vão desaparecendo progressivamente ou são ocultados, no sentido de conduzir a uma luta ideológica, em que as palavras, as frases e os conceitos se vão revertendo, na tentativa de seduzir os cidadãos, deturpando ou escondendo factos históricos marcantes de determinadas acontecimentos da evolução civilizacional através dos séculos.

Ser historiador investigador carece de conhecimento real ou análise de diversas situações da história ou dos acontecimentos, desde a evolução das ocorrências ou desenvolvimento dos factos históricos, obtidos através de investigação adequada ao tempo em estudo, com recolha de dados com isenção, resultantes da pesquisa de documentos à época ou então em situações contemporâneas e ainda, se possível, ouvir cidadãos isentos de ideologias, que viveram situações relevantes para transmitir com objetividade factos reais do passado recente, que contribuíram para construir comunidades mais justas e equilibradas e não denegrir o seu passado.

Através da história milenar mundial, em qualquer continente ou país, pode haver as mais variadas ocorrências, boas ou más, mas que levaram a construir civilizações evolutivas, mais solidárias e equilibradas, permitindo às gerações vindouras viver em melhores condições, num contexto económico-social e cultural.

Ao analisar o passado ou presente deve-se contextualizar as diversas situações e revelar os factos ligados ao tempo, pois os acontecimentos históricos têm de ser reportados à época e globalmente, considerando diversos aspetos e principalmente em locais isolados, pouco povoados com etnias diversificadas, por vezes nómadas e guerreiras, sem meios de comunicação e ausências de redes viárias ou aéreas, impedindo a chegada de maquinaria para os trabalhos de exploração mineira, agrícola, construção civil e outros, como tem acontecido ao longo de gerações, em muitos países, independentemente da cor e da etnia, pois não havia outra solução, senão o trabalho manual, como aconteceu e ainda hoje acontece em locais isolados de diversos países e continentes.

A história deve transmitir a realidade dos factos no seu todo ou no que foi possível investigar, revelando o que era natural e real ao tempo, sem outras soluções. A ciência histórica analisa factos e não está ao serviço de ideologias, mas estas podem projetar currículos em ambiente diverso.

Vêm estas considerações a respeito de um artigo que saiu no jornal O Público no passado dia 20 de junho, que não transmite a realidade, apesar dos acontecimentos ligados à ocupação da Lunda, nordeste de Angola, em finais do século XIX e princípio do século XX, terem sido diferentes, mas que começaram a mudar a partir da instalação da Diamang em 1917, no nordeste de Angola.

Após a segunda guerra mundial e à medida que as comunicações terrestres e ferroviárias começaram a ser desenvolvidas pelo governo de Angola e pela Diamang, a situação veio progressivamente a modificar-se. Por outro lado, a população da Lunda era insuficiente e devido às suas características étnicas, foi necessário recrutar pessoal no sul de Angola, mas foi principalmente a partir da década de cinquenta que as relações interétnicas e com os autóctones começaram a ter uma maior proximidade, com humanismo e solidariedade, e as condições laborais sofreram profundas melhorias, devido à chegada progressiva de maquinaria e outro tipo de material fundamental à exploração e tratamento mineiro.

As fotografias do artigo foram escolhidas ideologicamente, mostrando dois grupos – os brancos (colonos) e os negros-, onde se procura evidenciar a segregação e controlo, o que não corresponde à verdade, pois na companhia havia situações transversais aos brancos e aos negros, considerando o mineral em exploração e o seu valor.

A partir da década de setenta verificou-se uma progressiva e constante melhoria, como consequência da evolução dos acessos, permitindo a chegada de produtos e maquinaria de origem diversa, para dar melhores condições de vida aos brancos e aos negros.

Houve uma enorme preocupação de preparar infraestruturas nas redes viárias, nas habitações, na saúde, na escolaridade, na formação e na alimentação às comunidades ali residentes autóctones (quiocos, balubas, bailundos e cuanhamas), assim como vieram a assumir funções variadas, quer na condução de equipamentos, quer na exploração mineira, e mesmo nas áreas da saúde, nas oficinas, na agro-pecuária, nas comunicações e nos serviços administrativos.

Havia também diversas escolas profissionais, tais como de oficina automóvel, de serralharia, de eletricidade, de agro-pecuária, de condução de engenhos, de enfermagem, e outras.

A Diamang deu um grande impulso à cultura e à investigação, respeitando os costumes dos povos quiocos, como o prova o Museu do Dundo e o Laboratório de Biologia, onde trabalhavam autóctones com formação. A recolha de obras de arte ao longo de décadas, ali permaneceu até à independência e outras foram adquiridas fora de Angola, mesmo em Portugal, e para ali foram enviadas.

A Diamang tinha a Secção de Fotografia e respetivo Laboratório, criado com a finalidade de apoiar todos os trabalhadores, sendo as fotografias colhidas indiscriminadamente, coma finalidade de marcar a história e a evolução através dos tempos e qualquer pessoa podia fotografar pelo menos a partir da década de sessenta do século XX e há quem tenha valiosos espólios fotográficos e filmes, mesmo a partir da segunda grande guerra, que retratam o que foi a Diamang.

Realmente é de referir que através da fotografia e não só se procura denegrir uma empresa que foi exemplo em todo o mundo, na área da assistência aos seus trabalhadores e autóctones residentes nos quimbos, assim como promovendo progressivamente as funções dos trabalhadores angolanos em cargos diretivos na Diamang, e não vamos referir aqui situações em concreto que nos foram transmitidas após a independência, por respeito pelos dirigentes angolanos.



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