Espaço do Diário do Minho

Libertar o domingo

23 Jul 2021
Silva Araújo

1.Embora por motivos diferentes, alinho com quantos defendem o encerramento das grandes superfícies ao domingo. E vou mais longe: também as provas desportivas que se efetuam ao domingo deveriam passar para o sábado ou para qualquer outro dia da semana.

Sei que esta ideia terá muitos opositores mas é isto o que penso. E se pretendermos, de facto, enveredar por uma sociedade mais humana, onde o bem da pessoa esteja no centro das preocupações, é para aí que devemos caminhar.

Se o consumismo continuar a impor as suas leis e a grande preocupação forem os euros de lucro… Mas não me parece que uma sociedade regida por critérios consumistas e economicistas, que até contaminaram algumas pessoas da Igreja, seja a que melhor serve a pessoa humana.

 

2.É evidente que o descanso dominical tem atrás de si motivos religiosos. Não é sem razão que ao primeiro dia da semana chamamos domingo, do latim dies Dominica: o dia do Senhor. Do Senhor a quem os homens devem prestar culto e do Senhor que pretende que os homens sejam cada vez mais homens e vivam cada vez mais felizes.

A multiplicidade de dias santos, que noutros tempos existiu, foi provocada pelo motivo caritativo de aliviar os que faziam trabalhos de escravos, ordenando-se aos senhores que os não obrigassem a trabalhar nesses dias. Porque, depois, a realidade laboral se alterou, a escravatura foi teoricamente abolida e passaram a vigorar contratos e horários de trabalho, a Igreja aceitou que alguns dos dias santos fossem suprimidos.

A narrativa bíblica do Génesis é inequívoca: Deus criou o mundo em seis dias e ao sétimo descansou. O descanso é inerente à condição da pessoa humana. O homem não é uma máquina, e mesmo muitas destas não são de laboração contínua.

 

3.Diz-se que o domingo deve ser um dia em que o homem, liberto de outras ocupações, tem a oportunidade de pensar mais em si, na família, em Deus.

O domingo, liberto de atividades dispensáveis, permite ao homem voltar-se sobre si mesmo. Olhar para si. Refletir sobre como e para que vive.

Com o sistema de vida que temos quase não há tempo, nos dias de semana, para que os membros da mesma família se encontrem. Se nem ao domingo isso é possível, como é? Se nem ao domingo, calmamente, as pessoas podem almoçar juntas, como é? Que mundo estamos a construir?

Há que remar contra o individualismo egoísta que está a pretender impor-se, com nefastas consequências. Está a contribuir para a sociedade desumana do salve-se quem puder; do que o que importa é que eu esteja bem e os outros que se arranjem.

 

4.Libertar o domingo de ocupações adiáveis é dar ao homem a possibilidade de ser verdadeiramente pessoa: um ser em relação. Um ser que procura conviver. Um ser que se preocupa com os outros. Um ser que visita pessoas doentes ou em solidão. Um ser que cria amizades e procura fazer do mundo uma grande família. Por isso se afirma também que o domingo dá ao homem tempo para a prática da solidariedade ou, em linguagem cristã, da caridade.

 

5.Um domingo liberto de outras ocupações ajuda a pessoa, saindo do tal individualismo, a tomar consciência de que é um membro de uma comunidade e também, em comunidade, se deve encontrar para louvar o Criador. Daí o preceito cristão da Eucaristia dominical que, mais do que preceito, deveria surgir como que de uma espontânea necessidade do ser finito que o homem é, desejoso de celebrar a vitória sobre a morte, que foi a Ressurreição de Jesus.

Libertar o domingo, restituindo-o ao homem a fim de que o viva para si, para os outros e para Deus, é uma necessidade. Urgente.

Restituam-nos o domingo, por favor.



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