Espaço do Diário do Minho

Depois da travessia, a subida de novo ao planalto

27 Jul 2021
Luís Martins

Um lugar alto é sempre bom para reflectir e para observar. Também é um incentivo ou uma tentação para quem é motivado a ter melhores condições de vida ou anseia poder. Nas circunstâncias que experimentamos desde o início do ano de 2020, subir alto significa percorrer um nível crescente de infecções que levam a curva a inclinar-se para cima antes de voltar-se para a direita e estabilizar para depois descer. A curva a que me refiro está sob nova tempestade desde há mais de um mês. Cresce o número de infectados, de internados e de mortes. Sabemos que a inconsciência ou a falta de cuidado de qualquer um de nós pode potenciar uma ou mais infecções, dependendo dos contactos e da virulência do inimigo invisível. Da mesma forma, se nos resguardarmos e cumprirmos as orientações que as autoridades de saúde nos impõem, contribuímos para a diminuição do número de doentes. Os estados de calamidade ou de emergência podem controlar, mas a melhor forma de controlo é feita por comportamentos responsáveis. Não há aqui nenhuma dúvida. Se formos capazes de sair do nosso egoísmo, esperar com paciência e responsabilidade para sairmos da prisão dos dias, os benefícios chegarão a todos e sobrarão ainda exemplos que podem animar um ciclo virtuoso que é inimigo da pandemia. A generosidade e a solidariedade de cada um são, no contexto actual, a melhor garantia de vida futura. Só quando a responsabilidade é partilhada e assumida por todos se consegue o sucesso global. O objectivo é poder comemorar do lado de lá, depois de ultrapassado o planalto da irresponsabilidade dos que teimam em ignorar os riscos e da leviandade de algumas das decisões de quem foi escolhido para nos guiar.

Na ponta da história está o vírus que chegou de longe. A narrativa dos acontecimentos evidencia repetidamente que, primeiro, é preciso atravessar o mar, só depois a nova geografia se faz realidade e a vida melhora. É na travessia que mais se nota a importância dos líderes. Se tiverem a confiança dos subordinados, tudo se torna mais fácil na passagem de um ao outro lado, mas não tiveram. O objectivo da viagem é afastar-nos da pandemia, passar pelo estado de endemia e progressivamente chegarmos à liberdade de movimentos e de escolhas sem restrições. Infelizmente, a realidade é que a organização dos serviços competentes nem sempre têm primado pela eficácia. Confiar nos dirigentes e esperar que tomem as decisões certas e oportunas, é imperativo, mas isso não é fácil. Os de cá nunca previram com antecipação e isso fez toda a diferença. Não é bom governante quem quer. Em todo o caso, quando se quer muito os erros tendem a diminuir.

Foram meses de Estado de emergência com as restrições a ajudarem a uma mais rápida travessia. Depois, julgando-nos em liberdade absoluta, foi-nos dado o incentivo para comemorarmos a bola e irmos às festas populares. Recomeçamos, então, a contagem crescente de novas infecções. Iniciamos a subida de um novo planalto que trilhamos ainda, que nos consome a liberdade e nos estraga os dias, logo os que queríamos que fossem de mais tranquilidade ou de algum alívio. O outro lado do mar não se vê ainda e, dizem-nos os especialistas, a tempestade vai piorar um pouco mais, apesar do processo de vacinação em curso. As últimas estatísticas conhecidas confirmam-no.

Somos uns felizardos por termos meios de imunização à disposição e embora o vírus não esteja extinto, a verdade é que sobram vacinas. Não é um milagre, antes pelo contrário. Há pessoas, sobretudo, jovens, que faltam às marcações ou não se habilitam a tomá-las e isso vai prolongar o sofrimento.

Queremos subir à montanha, mas para apreciar a paisagem e ver mais longe. E agradecer estarmos lá para comemorar a liberdade e respirarmos saúde, mesmo que nos tenha custado muito. Não para subirmos com facilidade pela curva que nos torna perigosos e deixa o país confinado.



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