Espaço do Diário do Minho

Lares ou armazéns?

29 Jul 2021
Silva Araújo

1. A celebração, por feliz iniciativa do Papa Francisco, do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos proporcionou várias reflexões sobre as pessoas da chamada Terceira Idade. Sobre como se vivem o outono e o inverno da vida.

Avós e Idosos são credores do respeito e do carinho das gerações mais novas. Quer queiram quer não, muito lhes devem. E é da mais elementar justiça reconhecê-lo. Mais com gestos concretos do que com palavras bonitas onde o vocábulo solidariedade é vazio de conteúdo.

2. Repetidas vezes se diz e escreve que o lugar ideal para os Idosos é a família. É o ambiente em que sempre viveram. Desenraizá-los pode ser motivo de grande sofrimento.

Infelizmente nem sempre se constrói com o espaço suficiente para abrigar três gerações. A construção civil, no que à habitação diz respeito, é, em muitos casos, mais negócio do que serviço às pessoas. O importante é extrair o máximo rendimento dos metros de terreno de que se dispõe, construindo mais gaiolas do que habitações verdadeiramente dignas.

3. Nem sempre a família tem espaço para acolher os mais Idosos. Às vezes, também, por comodismo. E para muitos vem a solução dos lares. Para quem tem rendimento suficiente, porque lares para acolher Idosos com escassos meios económicos escasseiam. Os gestores dos dinheiros públicos falam de uma sociedade envelhecida mas não atuam em consequência.

4. Os lares devem ser verdadeiros lares e não armazéns de pessoas. Devem dispor de condições dignas. Onde os Idosos tenham a devida assistência. Cuidados de higiene. Alimentação cuidada e cuidadosamente servida. Acompanhamento médico e, para quem o desejar, espiritual. Onde se conviva e não simplesmente coexista. Onde se promovam iniciativas que ajudem o Idoso a viver, com alegria, o tempo que Deus lhe dá. Que não sejam um espaço sem horizontes, de onde quem ali entrou só daí sai quando o levarem para o cemitério. Ou ser Idoso é ver-se condenado a passar o tempo na cama ou diante de um aparelho de televisão? Lares cujos gestores não olhem aos cêntimos e cortem cegamente nos gastos, obcecados por ver onde podem poupar, como se o Idoso, depois de muito ter dado, fosse mais para ser explorado do que para ser servido.

Acolher e cuidar de um Idoso exige muito mais do que procurar que tenha a barriguinha cheia (com quê?!) e o rabinho enxuto.

5. Um Idoso que está num lar não é uma coisa que se arrumou, como se fosse um móvel ou um instrumento fora de uso.

Tenha a idade e as limitações que tiver o Idoso é sempre uma pessoa e como tal deve ser tratado. A idade não priva o Idoso da dignidade de ser humano.

O facto de a família não ter as devidas condições para o acolher em casa não significa que dele se desligue por completo. Que não deixe de haver contactos.

A pandemia não deve ser desculpa para o comodismo de uns nem para a sovinice de outros.

6. Cuidar dos Idosos é um imperativo que nem todos os responsáveis assumem. Às vezes usam-nos como instrumentos de propaganda mas não os servem. Preferem passar ao lado, como o sacerdote e o levita da parábola evangélica do Bom Samaritano.

Não me é permitido generalizar. Não quero generalizar. Não deixo de reconhecer as muitas famílias que tratam exemplarmente dos seus Idosos nem os muitos lares em que é prestada aos Idosos uma assistência modelar. As minhas homenagens.

Mas não posso deixar de alertar para situações deploráveis, às vezes protagonizadas por pessoas que, dada a sua condição, têm obrigação de dar exemplo. Também aqui se exigem mais atos e menos conversa. Mais realismo do que teatro.

Tenho a consciência de que, ao abordar este tema, me repito. O respeito pelos Idosos exige que não desista de alertar para a situação em que alguns deles se encontram.



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