Espaço do Diário do Minho

O surpreendente Jesus de Marcos – 3

31 Jul 2021
Carlos Nuno Vaz

No XV domingo do ciclo B, escutamos Marcos 6, 1-6, narrando o fracasso da pregação de Jesus na sua terra natal. No XVI, foi proposto Mc 6, 30-34, que narra o regresso dos discípulos da missão que Jesus lhes tinha confiado e antecede a primeira narrativa da multiplicação dos pães. Só que, no XVII domingo e até ao XXI, escutamos os riquíssimos textos do capítulo VI de João, o famoso discurso do pão da vida, e não as duas narrativas  da multiplicação dos pães, de Marcos.

Lucas e João narram apenas uma multiplicação dos pães. Marcos e Mateus narram duas. No caso de Marcos, Secundino Sánchez realça como é diversa a terminologia usada nas duas narrativas. Por ela se pode detectar que: «uma está dirigida ao mundo judeu, e outra ao mundo pagão». (p. 173)

Eis algumas das diferenças: na primeira, trata-se de 5 pães e dois peixes (Mc 6, 38);  na segunda, de 7 pães e alguns peixinhos (Mc 8, 7). Na primeira, a gente senta-se por grupos e na erva; na segunda, de forma desordenada, na terra; na primeira, ‘pronunciou a bênção’ (euloguessen), na segunda: ‘deu graças’ (eukaristêsas). Na primeira, sobram 12 cestos (kophinós) e comem 5 mil homens; na segunda sobram 7 canastras – spyris – (= cesto de vimes, largo de boca, que costuma ter duas asas). Na primeira, comeram 5 mil homens varões; na segunda, ‘uns quatro mil’ e não diz ‘homens’. Há ainda outras diferenças, mas estas chegam para vermos que a dupla multiplicação reveste um duplo carácter. A nomenclatura da primeira multiplicação é totalmente judaica. A da segunda é pagã. A primeira narrativa é mais arcaica, de origem palestina, e parece situar o acontecimento na margem ocidental do lago… e fala de doze cestos, número das tribos de Israel e dos apóstolos. A segunda, talvez proceda de ambientes cristãos de origem pagã, e situa o acontecimento na margem oriental, a dos pagãos, e fala de 7 açafates ou cestos de vimes, número das nações de Canaã (Act 13, 19) e dos diáconos helenistas (Act 6,5; 21,8). (Cf. p. 173).

Na primeira multiplicação, Marcos denomina os doze como ‘apóstolos’ e é a única vez que nele acontece. Curiosamente, no regresso da missão, dizem a Jesus, primeiro o que fizeram e depois o que ensinaram. Graças a eles, as pessoas acorrem a Jesus, que vai tomar a palavra e realizará para eles a multiplicação dos pães. Jesus ensina-os demoradamente, bem diferente do ensino que haviam feito eles. Jesus está totalmente absorvido pela Palavra. Por debaixo desta narrativa, com fundamentação histórica, perpassa outra realidade: a simbólica. Bem expressa, aliás, nos números: 5 e 2. Em São João, o número 5 tipifica Israel. A multiplicação de tipo judeu fala de cinco pães e cinco mil comensais. 

Os discípulos possuem 5 pães e dois peixes, como que a sugerir que o banquete da comunidade judeo-cristã vai surgir desde o ‘húmus’ mais profundo do judaísmo. Jesus vai organizar o seu banquete ao estilo e maneira judaica. Mandará que a gente se sente por grupos de 100 e 50. E sentam-se na erva, transformando o deserto num verde prado e recordando o salmo 23 que apresenta Cristo como Pastor. Jesus realiza o milagre elevando os olhos ao céu e pronunciando a bênção, gestos próprios do ambiente judeu. A multiplicação dos pães pressagia a instituição da Eucaristia, o banquete que Jesus oferece à sua comunidade de origem judaica , representada pela filha de Jairo.

A narrativa da segunda multiplicação (Mc 8, 1-10), antecedida pela cura da filha da mulher ‘grega, siro-fenícia’ de nascimento’, manda sentar ‘sobre a terra’. Os pães são 7 e alguns peixinhos. Na primeira, sobram 12 cestos; aqui 7 açafates. E a multiplicação tem lugar na parte oriental do lago. O motivo é também diferente: Jesus sente compaixão daquela gente: «porque há três dias que permanecem comigo e não têm que comer» (8,2).

Os 7 pães prefiguram o mundo pagão, as setenta nações e os 7 diáconos. Nesta ocasião, Jesus dá graças (Eucaristia). O pão significa a mensagem de Jesus, que é o único que nos pode saciar. Os gentios não têm necessidade de se fazerem judeus. Podem pertencer à comunidade de Jesus e manter a sua idiossincrasia. A mensagem de Jesus só se pode viver em família e exprime-se num banquete, que tem sempre o mesmo conteúdo, mas que se realiza de diferentes maneiras. Se a menina símbolo do mundo judeu era a filha de Jairo, a filha da mulher  siro-fenícia é o símbolo da igreja constituída a partir do mundo pagão.

O autor de que nos temos servido documenta abundantemente as afirmações. Nós reduzimos ao essencial, dadas as limitações  do espaço disponível.

Boas férias para quem as puder ter e delas usufruir.



Mais de Carlos Nuno Vaz

Carlos Nuno Vaz - 11 Set 2021

Proclamados os textos do capítulo VI de João sobre o Pão da Vida – domingos XVII a XXI –, retomamos o evangelho de Marcos a partir do capítulo 7.º, meditando, no XXII domingo, sobre o que realmente torna imputo o ser humano – o seu coração e o que dele sai; no XXIII, Mc 7, […]

Carlos Nuno Vaz - 17 Jul 2021

Foi a propósito da passagem referente à cura da hemorroíssa e da filha de Jairo (Mc 5, 23-43) que Secundino Sánchez mais aprofundou o carácter simbólico estruturante da narrativa evangélica de Marcos. Para ele, a hemorroíssa (a mulher que padecia de fluxo de sangue há 12 anos), representa Israel que se extingue, isto é, a […]

Carlos Nuno Vaz - 3 Jul 2021

É este o título principal do livro de Secundino Castro Sánchez, professor de Exegese e Teologia Espiritual na Universidade Pontifícia Comillas de Madrid, datado de 2005. Já adquiri o livro em 2009, mas só muito recentemente o li com atenção, sobretudo tendo em conta o evangelho proclamado no XIII Domingo (27/06/2021). Depois de no domingo […]


Scroll Up