Espaço do Diário do Minho

Erguer a tenda fora do acampamento

3 Ago 2021
Luís Martins

Muitos escolherão a época estival, normalmente um tempo de descanso e de férias, para acampar ao longo do território nacional ou até para lá das fronteiras. Uma coisa é certa: será sempre mais seguro montar a tenda em locais infraestruturados que ofereçam alguma segurança aos frequentadores e algumas condições mínimas de salubridade. Erguer a tenda fora do acampamento é sempre uma opção, mas essa não será certamente a norma; escolhem a última solução, sobretudo, os mais afoitos ou os que pretendem algum benefício extra do isolamento.

No Êxodo, houve uma altura em que Moisés colocou a sua tenda a certa distância da zona onde se concentravam as tendas dos seus concidadãos, que se mantiveram junto a elas, com o objectivo de encontrar as melhores condições possíveis para falar com Deus. A tenda da reunião, como lhe passou a chamar, tinha a vantagem de o afastar do bulício das discussões frequentes que se geravam então e de criar condições para o frente a frente esclarecedor que queria ter com Deus. Também nas nossas vidas usamos o silêncio e o recolhimento para Lhe expormos as dúvidas e formularmos os pedidos de esclarecimento mais pessoais.

Nos dias que correm, a população portuguesa não anda satisfeita com os seus representantes e não é de agora. Os partidos políticos estão a viver cada um na sua tenda, preocupados em manter ou conquistar eleitorado, custe o que custar, desligados do que foi a sua razão de ser e dos seus valores originais. O povo não se sente representado e, por isso, participa cada vez menos, havendo já uma franja significativa de eleitores que reclama alterações e outra que se desligou dos partidos políticos e dos seus líderes, não os reconhecendo como sérios e confiáveis. E não sendo de hoje esses juízos sobre a classe política, é tempo das organizações políticas tomarem verdadeira consciência disso, montarem uma tenda de discussão interna e fazerem uma reflexão profunda sobre a razão de ser da sua existência e das causas mais urgentes, no sentido de transmitirem confiança no mercado dos eleitores. Em boa verdade, trata-se de salvar a democracia e dos seus pilares fundamentais.

Não basta dizer que existe uma Constituição e que as decisões são tomadas por órgãos competentes. É preciso que os cidadãos confiem nos eleitos, e para isso, torna-se imprescindível que aqueles voltem a participar. Enquanto não o fizerem, vão continuar a murmurar e a não acreditar. Se a vocação dos representantes for genuína, se o serviço à comunidade for a sua razão de ser, hão-de montar tendas de discussão fora dos acampamentos partidários para chegar a conclusões sérias para a actividade política; hão-de revestir-se de virtudes que hoje lhes faltam e hão-de cumprir escrupulosamente, sem subterfúgios, o que prometerem aos eleitores. E estes hão-de, finalmente, acreditar.

De certa forma, existe um deserto de entendimentos na actividade política em Portugal. É verdade que se fala neles de quando em quando, mas não passa disso. E assim se perde a confiança e o povo se torna descrente. As intenções são o princípio de algo, nunca um fim, por isso, não basta enunciá-las. Constituem-se em pura ilusão para consumo circunstancial quando não não existem desenvolvimentos posteriores. Formam um deserto no processo democrático. E um qualquer deserto é sempre um obstáculo na prossecução dos objectivos. Às vezes, é apenas uma das partes que impede, por interesse meramente partidário, a solução; outras, é toda a classe política, numa atitude farisaica, que se não dispõe a resolver a equação. Ora, uma actividade mascarada é sempre suspeita e merecedora de repúdio.

Sem esforço e disciplina não se vai a lado nenhum, não se consegue sequer organizar um encontro para repensar o caminho a prosseguir e fazer memória dos sucessos a replicar no futuro. Discutir o regime e acertar as regras do jogo político pode ser preciso. Então, que se montem tendas específicas fora dos quartéis-generais partidários para as abordagens necessárias. Pessoalmente, considero imperioso o investimento.



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