Espaço do Diário do Minho

PERDA E ENCONTRO

6 Ago 2021
Isabel Vasco Costa

Entre vários dissabores, a epidemia levou-nos também à perda de confiança em cientistas, políticos, vacinas, jornalistas, etc. Quem tem razão? Onde está a verdade? Quem quer o nosso bem? Quem poderá querer aproveitar-se da situação que estamos a viver?

De todas as perdas na vida, há duas extremamente angustiantes, sobretudo se a perda se alonga no tempo. Uma, é a perda de pessoas queridas; outra, é a perda do caminho, de orientação, como pode acontecer no alto mar ou em montanhas elevadas. Foi um pouco isso que sucedeu em certo momento da vida de um casal: perderam o filho adolescente e, simultaneamente, o caminho. Sem saber onde o rapaz se encontrava, onde o iriam procurar? O episódio, com vários matizes, é comum na experiência humana. O facto aqui evocado terminou bem, pois o aflito casal, Nossa Senhora e S. José, conseguiu encontrar Jesus. Vale a pena acompanhar esta aventura para nos animarmos a buscar o que verdadeiramente vale a pena procurar.

Primeiro passo: Maria e José acreditaram na especial missão – na vocação – que Deus lhes dera. Isso é universal. Cada mulher, cada homem, chega ao mundo com uma importantíssima missão. Pode aceitá-la ou não, com desculpas várias: não ser digno, não acreditar no que descobriu (dá trabalho procurar descobrir a vocação e também dá trabalho aderir a ela, pois implica sujeitar as ambições pessoais à vontade divina), não querer acreditar na existência de Deus, etc. A Virgem Maria e S. José acreditaram na verdade das revelações recebidas e abraçaram com amor e responsabilidade a vontade de Deus porque eram humildes. A humildade é uma parte da virtude da fortaleza. Só os fortes e valentes estão dispostos a correr riscos e sofrer dissabores para agradar ao seu Senhor. Estar disposto a constituir família, a casar-se e a ter descendência, e responsabilizar-se por ela, uma vocação nobre. Estar disposto a não se casar, para poder responsabilizar-se por uma família mais alargada em qualquer circunstância ou lugar, é uma vocação mais importante até. Quer uma quer outra são caminhos de santidade. Poderemos afirmar que este casal viveu estas duas vocações? Parece-nos que sim: aceitaram casar-se para proporcionar o ambiente normal de uma família a Jesus, mas viveram o celibato próprio da entrega e disponibilidade.

Maria e José amavam Jesus de tal modo que não podiam viver sem Ele. Logo que se aperceberam de que não tinha vindo na caravana que voltava de Jerusalém a Nazaré, retrocederam no caminho, mesmo sem saberem onde Ele se encontrava. O que sim, sabiam, é que o caminho que estavam a seguir, de volta a Nazaré, não era o que os levaria ao encontro de Jesus. O caminho a seguir nem sempre é claro. Por isso, é necessário ir perguntando onde está Jesus para saber onde Ele quer que o encontremos. O local do encontro com Jesus foi no Templo porque Ele já tinha noção de que devia “tratar das coisas de meu Pai”, como disse a seus pais quando voltaram a ver-se.

Aos doze anos já se deve ter noção do sentido da vida. A razão humana já consegue compreender que há um Deus criador ao qual deve adorar e servir. Mas aos doze anos ainda se é adolescente e os pais assustam-se com o crescimento dos filhos. Maria e José assustaram-se ao perderem Jesus, e admiraram-se ao constatarem a sua sabedoria e autoridade perante os doutores da lei. Aprenderam a compreender e respeitar a vocação de Jesus, mas Jesus, embora ainda adolescente, foi-lhes submisso daí em diante, e crescia em “estatura e sabedoria”.

A grande alegria: encontrar o perdido. As nossas personagens, as três, tiveram a noção do que lhes faltava, do que tinham perdido. Todas sentiam a falta de quem amavam. José e Maria não queriam perder a presença encantadora de Jesus e, ainda menos, falhar em alguma parcela da confiança que Deus depositara neles. Jesus, como verdadeiro Homem, sentia saudades dos pais e voltou a obedecer-lhes; como Deus, sentia a falta do amor dos homens por Ele e daí a sua pressa em cuidar “das coisas de meu Pai”. A viagem a Jerusalém era o momento propício e adequado para se revelar como Deus, embora ainda de forma obscura. Só os seus pais entenderam a verdade e profundidade do que lhes dissera, e sua mãe “guardava tudo no seu coração”. Anos mais tarde, Jesus diria que era “o caminho, a verdade e a Vida”. Nossa Senhora e S. José já o sabiam; seguiram fielmente esse caminho e viveram de acordo com essa descoberta.

Podemos continuar a ter incertezas acerca de pandemias e outras realidades, geralmente passageiras. Temos, porém, uma certeza que corresponde à verdade: aquela que nos foi revelada pelo Filho de Deus. Esta verdade é imutável e quem encontrar e seguir este caminho terá a vida eterna e será feliz para sempre.



Mais de Isabel Vasco Costa

Isabel Vasco Costa - 25 Ago 2021

Vamos aqui pensar no tema da saúde: cirurgias, tratamentos, dietas, implantes, fisioterapias, prevenções, acompanhamento psicológico. Creio que todos nós já teremos passado pela experiência de uma doença grave ou de uma operação cirúrgica, própria ou alheia. Sabemos, então, que se vive um tempo de mal-estar físico e ansiedade psíquica, enquanto não se conhece a causa […]

Isabel Vasco Costa - 20 Ago 2021

Num vídeo, contava-se um episódio familiar. Manuel costumava ir passar as férias da Páscoa com os avós. Com dez anos, insistiu muito com os pais para que o deixassem ir sozinho, pois já era crescido. Contrariados, os pais levaram-no à estação ferroviária e acompanharam-no ao seu lugar. Pouco antes de sair, o pai meteu-lhe um […]

Isabel Vasco Costa - 11 Ago 2021

Em tempo estival e de descanso, os amores tendem a ser fugazes e até fúteis, quase passatempos. Não será a altura de pensar neste tema de uma forma diferente, isto é, de amores para sempre, para todo o tempo de vida e para toda a eternidade? Apoiemo-nos na sabedoria do Papa emérito Bento XVI. Numa […]


Scroll Up