Espaço do Diário do Minho

UM ENCONTRO INESPERADO – I

14 Ago 2021
P. Rui Rosas

Certa vez, de forma algo inesperada, encontrei-me com alguém que desconhecia – e continuei durante váridos meses sem saber a sua identidade. Foi num café, a meio de uma viagem entre a cidade onde moro e outra para onde me dirigia por razões profissionais.

Tinha parado por uns momentos, a fim de tomar um café, que me restabelecesse a atenção. De facto, sentia-me com muito sono e o trajecto a percorrer ainda exigia bastante tempo de condução.

Surpreendentemente, fui abordado por alguém que desconhecia por completo. Começou por perguntar-me: “O Senhor é padre, não é verdade?”. Respondi-lhe afirmativamente. “Pelo menos – notou -, não esconde essa sua faceta na forma como se veste”. Observei que mais do que “faceta” era o meu traje profissional. E acrescentei que se as pessoas, ao ver-me, me reconheciam como tal, facilitava-lhes a abordagem de algum tema que desejassem tratar, tendo em conta a minha condição sacerdotal.

Manteve-se calado uns instantes. Olhava-me com certa desconfiança, ou.pelo menos, de um modo um pouco estranho. Não sabendo o que fazer, perguntei-lhe: “Deseja alguma coisa de mim?” Não me respondeu, pediu-me com a mão que aguardasse uns momentos. Dirigiu-se ao balcão e foi pagar a despesa que fizera com uma senhora que o acompanhava e se encontrava sentada numa mesa

próxima da que eu ocupava. Suponho que seria a sua esposa.

Aguardei com alguma expectativa o seu regresso, que se verificou pouco tempo depois. “Dá-me licença?”, disse, sentando-se numa cadeira da minha mesa. E antes que eu tivesse possibilidade de manifestar o meu acordo, perguntou-me: “Porque é que o senhor não acaba com a obrigação das missas aos domingos e festas de guarda?” Tentei explicar-lhe que a minha responsabilidade nessa obrigação era apenas a de um católico. Não fora eu que determinara tal modo de conduta, mas a autoridade da Igreja. Embora me considerasse em perfeita sintonia com tal determinação.

Respondeu de modo literal. “Quem manda na Igreja são os padres!” Respondi-lhe que isso não era verdade. Efectivamente, na Igreja havia uma hierarquia, presidida pelo sucessor de S. Pedro, primeiro bispo de Roma, que era o Santo Padre, actualmente o Papa Francisco…

Interrompeu-me: “Esse é boa pessoa! Homem simples e muito carinhoso… Mas há por aí cada “mandão”. E exemplificou, explicando-me que o pároco da sua freguesia dava ordens a toda a gente nas missas de domingo, como se fosse a maior autoridade desta terra…

Por isso, deixei de lá ir. Era o que me faltava! Darem-me ordens por tudo e por nada… E ai daquele que discordasse…!”

Tentei, com bonomia e paz, explicar ao meu interlocutor que os homens são muito diferentes uns dos outros. E isso reflectia-se, com certeza, entre os sacerdotes. O que não era razão para pormos de parte a sua autoridade. Quando muito, se nos incomodasse a forma de prègar de algum, no exercício da sua qualidade de pastor, havia muitas outras igrejas onde, com certeza, encontraríamos algum padre que se harmonizasse mais com a nossa maneira de ouvir as suas homilias e de aceder a alguns conselhos que nos desse. Não concordou. “Vem tudo a dar ao mesmo! Ser obrigado a ir à missa aos domingos é uma violência…! Eu cá não estou para isso! O domingo é um dia para se descansar e não para cumprir obrigações…”

Retorqui: “O domingo não é para cumprir obrigações? Neste dia o meu amigo esquece quais são as suas ? Suponho que é casado: não pensa nos deveres que tem para com a sua mulher e a sua família?”

Isso é diferente. Mas não dispenso certas coisas… Por exemplo: a minha esposa não se interessa nada por futebol. Eu sou sócio do… (e nomeou o clube da sua preferência). Não deixo de ir ao estádio ver um desafio. Isso faz parte da minha minha vida e do meu… descanso. E se calha a um domingo, como tantas vezes, ela já sabe o que a espera… Fica em casa e não conta comigo…”

Caríssimo amigo: tem a sorte de ter uma consorte muito pacífica… Conheço casos muito diferentes…”

Eu trato-a bem, descanse… Mas que não me venha contrariar por eu ir ao estádio. Era o que faltava!” Não me disse mais nada. Saiu, apressado, de ao pé de mim. E, em voz altiva e mandona, disse à senhora da mesa que o esperava: “Vamos embora, despacha-te!” E retirou-se do interior do café, no que foi imediatamente seguido pela sua esposa. Preparando-me para ir embora, quis pagar as minhas despesas. Dirigi-me ao balcão, mas disseram-me. “Está tudo pago… Foi o senhor que acabou de sair…”



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