Espaço do Diário do Minho

A instabilidade no nordeste de Angola após o 25 de abril e o ataque dos pirilampos

21 Ago 2021
Bernardo Reis

Após o 25 de abril de 1974 viviam-se momentos difíceis em Angola devido aos movimentos de libertação e à incerteza criada pelo governo de transição, enquanto não foi proclamada a independência.

Angola não estava preparada para uma independência tranquila e estruturada previamente, devido à indefinição de uma política estratégica antecipada pelo Estado Novo, previsível e sem retrocesso. Este caminho errado constituiu uma grave situação para as etnias diferenciadas ali existentes, assim como para os portugueses ali residentes ou natos, que ali investiram e foram a fonte de desenvolvimento de um futuro país, com enormes potencialidades a nível mundial.

Embora com menor dimensão na Lunda (nordeste de Angola), devido à forma como os autóctones eram tratados, formados e promovidos, não deixaram de existir problemas dentro do contexto da independência, mas havendo factos preocupantes ligados à evolução política da República Democrática do Congo (Zaire), após a independência, com uma grande crise em 1960-63, como consequência do secessionista Estado de Katanga, proclamado por Tchombé em 1960, então Frente Nacional de Libertação do Congo (FLNC), como grupo rebelde, que manteve a atividade no Zaire ou exilou-se a maioria em Angola, em meados dos anos 60, sob a liderança do general Nathaniel Mbumba que se instalou em Camissombo (Veríssimo Sarmento).

Aliás, o Presidente Mobutu Seko moveu uma grande perseguição aos katangueses que lutaram pela independência de Katanga, porque a economia do país dependia da indústria mineira ali explorada e que prestaram valiosos serviços ao MPLA, tendo contribuído para derrubar o Presidente Mobutu em 1997, o qual tomou o poder em 1965.

Durante esse período a FNLA de Holden Roberto esteve ligada a Mobutu e a UNITA tinha sido a sua principal inimiga no leste de Angola.

Esta situação veio a criar ali sérios problemas, principalmente na Lunda, pois a qualquer momento podia ser invadida pelas tropas congolesas de Mobutu contra o MPLA, que no tempo dominava a Lunda, pois a FNLA tinha o apoio do presidente do Congo para poder atacar e penetrar no nordeste de Angola, onde se refugiaram os denominados Tigres Katangueses.

Como consequência de uma eventual invasão pela fronteira próxima do Dundo, sede administrativa da Companhia de Diamantes de Angola (DIAMANG) e do Comissariado do Chitato (Portugalia), foi necessário criar um corpo de voluntários, constituído por autóctones e brancos, tendo em vista a defesa da área diamantífera da Diamang, na qual também colaborou a Frente Nacional de Libertação do Congo, exilada parcialmente em Angola, e sob a liderança de Nathaniel Mbumba.

Uma das frentes de defesa, constituída por um Corpo de Voluntários, ficou instalada na barragem hidroelétrica do rio Luachimo, nos arredores do Dundo, dando acesso a estrada para N´zargi (Vila Paiva de Andrade – Andrada) e equipada também, com meios anti-aéreos, prevendo-se também eventuais ataques aéreos à central hidroelétrica, que fornecia energia para a maioria das povoações e das explorações mineiras.

Em meados de 1975, quando nos encontrávamos a jantar, na casa do Diretor Geral e da Administração, com o Diretor Geral e o Coordenador da Segurança, ouvimos com insistência as baterias anti-aéreas a dispararem, o que nos acresceu enorme preocupação.

De imediato fomos numa viatura, em direção ao local onde estava instalado o grupo de segurança, e à medida que nos íamos aproximando fazíamos sinais com as luzes da viatura definidas para ocorrências deste tipo de situações.

Quando chegamos ao local e com grande espanto nosso, continuando as baterias anti-aéreas a disparar, verificamos então que tinha ocorrido uma grande invasão de pirilampos na vegetação arbórea, pouco comum naquele local e desconhecida das forças de segurança ali instaladas, sendo considerado a preparação de um ataque aéreo à central hidroelétrica de Lucahimo.

Só após a nossa chegada ao local a situação ficou normalizada, mediante o devido esclarecimento sobre a ocorrência anormal desta invasão de insetos numa noite muito escura e onde a iluminação elétrica noturna não era ligada por precaução de segurança, mas como afirmava um autor desconhecido “Os pirilampos são animais sábios. Aproveitam o escuro para se iluminarem”.



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