Espaço do Diário do Minho

Um encontro inesperado

22 Ago 2021
P. Rui Rosas

No artigo anterior, tive oportunidade de contar uma pequena história, que se resumia, ao fim e ao cabo, num encontro imprevisto com um senhor que eu desconhecia. Na altura, pareceu-me que se encontrava inquieto com qualquer problema da sua vida, além de se me afigurar como alguém um tanto arrogante ou, como diz o povo, muito “senhor do seu nariz”.

Nunca mais tive oportunidade de o ver de novo, porque, se bem que tratou o que quis de um modo categórico, sem grande hipótese de diálogo, a verdade é que, quando eu fui pagar a conta das despesas que fizera nesse café onde ele me abordou, indicaram-me de que estava tudo pago “por aquele cavalheiro que esteve a falar com o senhor padre e saiu há pouco com a sua esposa”. Queria agradecer-lhe a amabilidade e não consegui.

Vários meses decorreram desde então, embora não se tivesse apagado da memória os momentos daquela conversa com quem não estava para ir à missa aos domingos, mas não se coibia de frequentar presencialmente, fosse qual fosse o dia da semana, algum desafio de futebol do seu clube predileto.

O tempo seguia a sua trama normal. Um telefonema de um amigo veio pedir-me se haveria possibilidade de eu sacramentar a sua esposa numa clínica da cidade, pois teria de submeter-se a uma operação complexa, provavelmente no dia seguinte. Fora ela mesmo que lhe lembrara essa possibilidade. Claro que acedi, propondo-lhe previamente a hora da minha visita, e pedindo-lhe que confirmasse a possibilidade da sua realização, de acordo com o horário dessa instituição hospitalar. O que ele fez quase imediatamente, informando-me de que estava tudo confirmado e autorizado.

Para aí me dirigi. O meu amigo estava à porta de entrada e acolheu-me muito agradecido. Subimos de elevador para o andar onde a esposa se encontrava, que nos obrigou a percorrer um longo corredor, pois o seu quarto era o último do lado direito. Pelo caminho, num pequeno halll, encontrava-se uma senhora sentada numa cadeira. Ao ver-me, levantou-se e disse-me: “Como está, senhor padre?” Surpreendi-me, porque não me lembrava quem fosse e, sobretudo, a razão pela qual se ergueu tão prontamente e me saudou com um ar preocupado e, ao mesmo tempo, algo ansioso. Respondi-lhe, agradecendo a sua saudação e continuei com o marido da doente, que me ia dando pormenores sobre a evolução do estado de saúde da esposa. O encontro com a mulher do meu amigo decorreu da melhor maneira. Recebeu os sacramentos e sentia-se contentíssima com essa realidade. Era, aliás, uma boa cristã, mãe que criou um bom punhado de filhos e sempre pronta para ajudar quem necessitasse do seu auxílio. No final da minha intervenção, bateram à porta do quarto e, com delicadeza, entrou o seu marido pedindo licença. “Tudo de acordo com os conformes?”, perguntou à doente. “Sim, tudo…” E olhando-me, disse: “Está à porta alguém que quer falar consigo…”. Perante informação tão inesperada, levantei-me e, qual não foi o meu espanto, reconheci a senhora do pequeno hall, que me havia saudado quando por ela passei antes de administrar os sacramentos.

“Boa tarde”, disse eu. “Muito boa tarde”, respondeu com certa timidez. “Queria pedir-lhe um favor, mas antes deixe-me fazer a apresentação de mim mesma…” E explicou: “Eu sou a esposa daquele homem que, há alguns meses, falou com o senhor padre num café, dizendo-lhe que não ia à Missa aos domingos, mas nunca faltava a um desafio de futebol do seu clube…” Recordei-me de facto do que me dizia. Perguntei-lhe imediatamente: “Como está o seu marido?” Começou a chorar e, entre soluços, contou-me dum acidente de carro que punha em perigo a vida do seu marido que, por acaso, estava internado nesta clínica. “Não o pode visitar, agora que veio aqui…?” Perguntei-lhe em que local se encontrava e, juntamente com ela, entrei no quarto que ocupava, enlaçado por aparelhos complexos, algálias e tubos transparentes que quase o escondiam.

A mulher disse-lhe: “Está aqui o padre do café. Queres falar com ele? ” E antes que ele respondesse, segredou-lhe: “Eu saio e ficas à vontade…” Afastou-se, fechando a porta por fora. A sós com ele, queria agradecer-lhe o ter-me pago o café, mas não me deixou. Com voz arrastada, que eu entendia com esforço, titubeou: “Queria pedir perdão a Deus, mas não tenho coragem… Fui um grande pecador, cheio de orgulho…” “Mas – segredei-lhe eu – Jesus ensinou-nos a capacidade de perdão de Deus: até 70×7. Morreu na Cruz para podermos entrar no Céu, resgatando os nossos pecados. E, pouco antes de morrer, deu-nos a sua Mãe como nossa Mãe. Que mais é preciso para Lhe pedir perdão…?”. Concordou e sorriu…

Soube que o capelão da Clínica lhe dera a comunhão, a pedido dele, pouco antes do jantar. À noite, recebi um telefonema da esposa, chorando e dizendo com serenidade que o seu marido ia a caminho do Céu.



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