Espaço do Diário do Minho

Não é secretário-geral quem Costa quer

7 Set 2021
Luís Martins

Acabo hoje com as dúvidas. Não deixarei que se crie qualquer tipo de tabu. Definitivamente, não vou candidatar-me a secretário-geral do Partido Socialista. Não quero e mesmo que quisesse teria de me filiar primeiro, coisa que não está nas minhas intenções para os horizontes mais próximos. Mas, sei que teria fortes possibilidades de me equiparar a outros eventuais candidatos. Por uma razão muito simples, que não tem a ver com a minha valia para os militantes rosa. É que a maioria dos socialistas depois de Costa estará com Pedro Nuno Santos, sendo que o actual secretário-geral não o quer como sucessor, preferindo outro qualquer, mesmo um recém chegado, por menos valia que tenha. Era aqui que eu podia entrar – apesar de achar que o que Costa anda a fazer não condiz com os valores de um partido democrático, estou certo que ele me aceitaria, desde logo, por não estar conotado com a facção pedronunosantista –, mas, como disse, não está nos meus horizontes, pelo menos enquanto não for bastante velho, comprometer-me com um partido que não aprecio, por causa do facilitismo e irresponsabilidade na sua acção governativa – defeitos que não são de hoje –, e por causa do sistemático incumprimento das suas promessas eleitorais ao longo dos anos, mesmo antes da última geração de protagonistas. Recordo, a propósito,  que se disse muitas vezes, durante um certo período da história pós-revolução, que o socialismo tinha sido guardado na gaveta. É verdade que assinalei preferencial o partido socialista numa das recentes eleições, muito embora com um olho à Camões – por estar profundamente zangado com outro partido à sua direita que frequentei durante bastante tempo –, mas fi-lo sem simpatizar com a estrutura e sem me sentir minimamente confiante e confortável. De todas as outras vezes em que fomos chamados a escolher os representantes para a Assembleia da República, nunca antes havia colocado a cruz atrás da designação desta força partidária.

Continuando. Há um tempo atrás, Costa tinha avisado que não tinha ainda, nessa altura, metido os papéis para a reforma, o que fez agora, estando tão-só à espera que lhe apresentem proposta condizente com o futuro que almeja para depois do deferimento. E parece que está tudo a correr pelo melhor, inclusive, estará tudo acertado para que a nova vida se inicie em 2023. Na verdade, ninguém admite ir embora sem que tenha confirmação de que o emprego do outro lado é certo. E Costa não é dos que arrisca. Só deixou o tabu pegar para disfarçar que não tem andado a tratar de assuntos particulares no horário de expediente.

Apesar da aparente serenidade interna, os verdadeiros socialistas devem estar desiludidos com Costa, roídos por dentro, mas sem darem argumentos aos adversários partidários que poderiam sempre transpor alguma maldade para a luta política. Faz parte do ADN dos socialistas este encobrimento comprometido quando o PS está no poder, ao invés do que acontece, por exemplo, noutras forças partidárias. Se não fosse o caso, outros galos cantariam e até o homem dos comboios teria acrescentado mais palavras ao seu quase silêncio na reunião magna socialista. Melhor, teria havido um discurso completo e, por certo, com muitas palmas dos congressistas. O facto é que a sucessão está no ar e pode temer-se da veia de artista de Costa que se conhece, pelo menos, desde que arredou de cena António José Seguro. Não creio que, desta vez, consiga fazer algo parecido ao seu ajudante mais promissor, que também tem dotes de artista e lhe responde num tom nada temerário, com letra de desafio e com poucas palavras, que não chegam para um discurso, sendo, no entanto, suficientes. Não se vai falar de outra coisa.  E a responsabilidade é do próprio Costa, que deixará de ser respeitado daqui a nada. Nessa altura, se eu tivesse a veleidade de me candidatar agora, seria cilindrado tal como os que Costa queria para sucessores.



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