Espaço do Diário do Minho

Esquerda – Direita

15 Set 2021
Dinis Salgado

(A prosa seguinte poderia ter sido, em síntese alargada, a manta de retalhos de um bate-papo de esquina ou tertúlia a uma mesa de café entabulado entre comparsas habituais de intrigas e fofoquices, mais ao jeito feminino).

Ora, esta cena desenrola-se não à esquina, mas à mesa de café em fogo cruzado; e o mais- palrador do grupo (o pensador, o patriota, o sonhador, o bem-intencionado) dispara com veemência, embora em jeito de chalaça, assim:

– Mas, afinal, do que o país precisa não é de andar para a frente? Então, se o vamos levar para a esquerda ou para a direita, como é? Será a lei do ziguezague como por aí se quer impor? O que importa mesmo, o que é urgente é unir e não desunir os portugueses.

O grupo emerge, assim, de uma certa letargia coloquial e reage por um dos seus extremos (o que tem pruridos de esquerda): tal e qual:

– Como piada a argumentação é boa, agora em termos de ação e filosofia políticas deixa muito a desejar; até porque levar o país para a esquerda é levá-lo para a frente, não tenho dúvidas, assim como puxá-lo para a direita será levá-lo para trás.

O grupo perscruta e atenta e ele prossegue e avança com certo arrazoado que tem tudo a ver com noções de socialismo científico, lutas operárias, explorações do homem pelo homem, monopólios, enfim, numa tentativa de para fazer crer ao grupo que andar para a esquerda é andar para a frente, para o rumo certo.

Ora, é, aqui, que o mais espadaúdo do grupo, o que tem, poderemos dizer, pruridos de direita rebenta num contra-ataque cerrado por outro dos extremos. Assim:

– Mas, vendo bem as coisas, a nossa sociedade e penso que as demais não estão organizadas para canhotos; senão, vejamos: comemos com a direita, escrevemos com a direita, cumprimentamos com a direita, benzemo-nos com a direita e, até, o pé direito tem a sua hegemonia sobre o pé esquerdo, pois até se diz entrar com o pé direito em jeito de obter sucesso.

Gargalhada geral do grupo pelo remoque e, sobretudo, aplausos pelo poder de desmontagem, em termos gerais, da argumentação do camarada com pruridos de esquerda.

Retoma o patriota, o sonhador, o bem-intencionado:

– Pois eu insisto que o que o país precisa é de andar para a frente; e isso só se consegue com políticos de corpo inteiro que falem primeiro a linguagem de todos e não desta ou daquela fação, deste ou daquele grupo, deste ou daquele partido.

O grupo sente-se, agora, todo ele comprometido e o ambiente esquenta; é, então, que salta a terreiro o realista, o tu-cá-tu-lá, o pão-pão-queijo-queijo. Tal e qual:

– Reparem, amigos, tudo na vida dos povos e das nações tem duas faces como as moedas e tudo gira um tanto à volta desta dicotomia; assim é que há o bem e o mal, o preto e o branco, o doce e o amargo, o amor e o ódio, a esquerda e a direita. Ora, manter o equilíbrio sem cair nos extremos, nem por eles se influenciar, é difícil, até quase impossível; por isso, sou pela clareza nas definições das opções e linhas de rumo; e, assim, para a vida de um país o pior são as dúvidas, as demagogias, as incongruências, a meias-tintas, as meias verdades, os oportunismos.

– Deixemo-nos de tretas – avança o mais calado de todos – cá por mim aposto no consenso, na convergência, nas cedências de parte a parte e tudo através do diálogo; o que é, assim, a modos de uma política de caldeirada: estar bem com todos, jogar à esquerda e à direita, ao centro, a todo o terreno, conforme a necessidade e a isto se chama não empatar, andar para a frente.

Mais gargalhadas do grupo, para entrar de novo, o pensador, o patriota, o sonhador, o bem-intencionado:

– O que é preciso é pôr de parte o que nos divide e aproveitar o que nos une, porque somos todos portugueses, embarcados no mesmo bote, e levar este país ao bom caminho, ao reencontro da sua identidade nacional; e para isso aposto em políticos que unam e não dividam, pois o povo não come, não bebe, nem vive de ideologias, venham elas de onde vierem; e o que ele quer é futuro e não passado e obras, muitas obras e ter dignidade e esperança; agora cá essas comichões de esquerdas e direitas só me fazem lembrar os tempos idos da tropa e do marcar passo pelas paradas: esquerda-direita-um-dois…

Aqui chegados, o desmancha-prazeres põe fim ao devaneio, ao blá-blá-blá, cortando cerce:

  • E se fôssemos aquecer os pés, está lá fora um calorzinho bom a chamar por nós!

Todos se levantaram respondendo ao apelo do sol e dos pés quentes, numa revoada de aquiescência pela vida que vai lá fora; todavia, à mesa do café, agora vazia e fria, fica ainda o eco e o fio das palavras que se disseram e não disseram e se vão esmorecendo com as horas.

Então, até de hoje a oito.



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