Espaço do Diário do Minho

Ainda terei os “parafusos” bem apertados ou faltam-me alguns?…

16 Set 2021
Carlos Aguiar Gomes

Os meus leitores conhecem a expressão popular para designar alguém cujos raciocínios fogem do equilíbrio. Eu, neste tempo de caos mental, ditadura declarada sobre pensamento, sinto-me assim um pouco “desaparafusado”. Creio que não estou afinado pelas normas vigentes totalitárias e que varrem todo o Ocidente. Sinto-me um “borderline”.

Vou tentar explicar, primeiro contando um facto que vivi há já uns anos e depois um facto que eu li, dia 9 de Setembro p.p.

Facto vivido: ano de 1974/75. Liceu de Paços de Ferreira onde fui colocado como Professor Efectivo do Ensino Liceal. No dia em que me apresentei fui obrigado a aceitar ser “Presidente do Conselho de Gestão” do dito Liceu. Contrariamente ao que se passou nessa altura, o ano lectivo decorreu na normalidade anormal que se vivia. Não houve nada de grave a não ser episódios “light” do que se passava no país.

Um dia, o encarregado da Biblioteca (meia dúzia de livros) veio pedir-me autorização para cumprir uma Directiva do Ministério da Educação: queimar todos os livros que constavam numa lista que o “sábios democratas” do citado Ministério tinha enviado para execução imediata. A minha ordem, firme, foi: “Comigo o senhor não queima nenhum livro. Os livros não se queimam. Nem um!”. O homem ficou atarantado pois entendia que seria de cumprir pois vinha do Ministério da Educação. Repeti-lhe a minha ordem e completei-a: “Se estes livros incomodam, então, faça o favor, de os colocar na estante mais alta, pois assim não incomodam ninguém, nem as “ almas sensíveis”.

Tenho alguns milhares de livros que herdei, comprei ou me foram oferecidos ao longo da minha longa vida. Destes, dos que me foram ofertados, nem todos são do meu agrado e, por isso, não os li nem tenciono vir a ler. Mas estão bem colocados e estimados nas estantes. Não concebo que se possam fazer “autos de fé” a livros! Tenho uma grande paixão por livros, assim, como poderia permitir que alguns, da situação acima referida, pudessem ser destruídos e pelo fogo? Nunca!

Assim sendo, causou-me revolta profunda uma notícia que li num recorte de um jornal do dia 9 p.p. que um amigo me enviou. Ei-la ( parte):

Cerca de 5000 livros, entre os quais álbuns do Tintim e do Asterix foram retirados da Biblioteca de um colégio Católico e queimados. E tudo para não ferir as susceptibilidades dos povos autóctones do Canadá. Está traçado neste país, um caminho para milhões de livros, enciclopédias, romances ou banda desenhada: serem destruídos na fogueira dos novos inquisidores .

Mas, não contentes com este tipo de destruição vai ser instaurado uma “cerimónia de purificação pelas chamas”. Creio que será como uma espécie de liturgia laica. “Assim enterramos as cinzas do racismo, da discriminação e dos estereótipos na esperança de crescermos num país inclusivo em que todos poderão viver na prosperidade e em segurança”. Que loucura! Que retrocesso civilizacional!

Mas por cá as coisas estão já a preparar-se: proposta de destruição do monumento aos Descobrimentos ou a iluminação que brilhou na mente da deputada Joacine ao sugerir recentemente que do Parlamento fossem retiradas todas as telas que exaltam os feitos heróicos de Portugal, por incitarem a xenofobia e racismo… E não se lembrou ( ou ainda não arranjou coragem?) para eliminar da bandeira de Portugal o escudo central, da selecção de futebol não usar camisolas com a Cruz de Cristo ou acabar com o Hino Nacional que exalta os “ Heróis do Mar”, o “Nobre Povo” e a “Nação valente e imortal”…

Também irão propor um “auto de fé” para reduzir a cinzas todas as edições dos LUSÍADAS? A ver vamos!

Perante esta onda de loucura generalizada, interrogo-me se o defeito é meu por ter sido desaparafusado ou me faltarem alguns parafusos.

O filósofo alemão, Heinrich Heine) deixou-nos um pensamento que vou transcrever para terminar este artigo:

“Onde se queimam livros acaba-se por se queimar os homens”



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