Espaço do Diário do Minho

«A fé não é açúcar que adoça a vida»

25 Set 2021
Carlos Nuno Vaz

A riqueza das homilias do papa Francisco na recente visita à Hungria e Eslováquia leva-me a tentar dar uma pequena amostra do que, do meu ponto de vista, foi mais relevante.

Antes de mais, o exemplo. O Papa Francisco faz aquilo que diz: «o tempo de uma homilia deve ser de 10 a 15 minutos no máximo, e que se inspire no texto bíblico.. deve ter coerência interna: uma ideia, uma imagem e um afecto». A homilia está no coração da Eucaristia». (Do Discurso no encontro com os sacerdotes, religiosos, seminaristas e catequistas, na Eslováquia).

Presidindo à missa de encerramento do 52º Congresso Eucarístico Internacional, em Budapeste, a homilia inspirou-se no evangelho de XXIV domingo, em que Pedro não aceita que o Messias tenha de sofrer e ser condenado à morte. Francisco acrescenta: «também nós queríamos um messias poderoso e não um servo crucificado. A Eucaristia está diante de nós para nos recordar quem é Deus. Não o faz com palavras, mas concretamente, mostrando-nos Deus como Pão partido, como Amor crucificado e dado. Podemos acrescentar muitas cerimónias, mas o Senhor permanece ali, na simplicidade de um Pão que se deixa partir, distribuir e comer. Está ali: para nos salvar, faz-se servo; para nos dar vida, morre. Faz-nos bem que nos deixemos perturbar pelo anúncio de Jesus, porque a cruz nunca está na moda, quer hoje, quer no passado. Mas cura por dentro. É diante do Crucificado que experimentamos uma benéfica luta interior, o áspero conflito entre o ‘pensar segundo Deus’ e o ‘pensar segundo os homens’. De um lado, temos a lógica de Deus, que é a de um amor humilde. O caminho de Deus recusa toda a imposição, ostentação e triunfalismo. Está sempre virado para o bem do outro, até ao sacrifício de si. Do outro lado, está o ‘pensar segundo os homens’: a lógica do mundo, da mundanidade, aferrada às honras e aos privilégios, virada para o prestígio e o sucesso. Nesta, conta a relevância e a força, aquilo que atira a atenção dos outros e se faz valer face a eles».

Deslumbrado e cego por esta perspectiva, Pedro chama Jesus à parte e recrimina-o ( Mc 8,32). Antes, tinha-O confessado; agora censura-O. Pode acontecer também a nós que coloquemos o Senhor à parte, colocando-o num ângulo do coração, continuando a considerar-nos religiosos e boas pessoas, caminhando pelo nosso caminho, sem nos deixarmos conquistar pela lógica de Jesus. Há, porém, uma verdade: Ele acompanha-nos nesta luta interior, porque deseja que, tal como os Apóstolos, também nós escolhamos a sua parte. Há a parte de Deus e a parte do mundo. A diferença não está entre quem é religioso e quem não o é. A diferença crucial está entre o verdadeiro Deus, e o deus do nosso eu. Quão distante está Aquele que reina em silêncio, na Cruz, do falso deus que gostaríamos que reinasse pela força e reduzisse ao silêncio os nossos inimigos! Como é diferente Cristo, que se propõe só com amor, dos messias poderosos e vencedores adulados pelo mundo! Jesus sacode-nos; não se contenta com declarações de fé. Pede-nos que purifiquemos a nossa religiosidade diante da sua Cruz, diante da Eucaristia. Faz-nos bem estar em adoração diante da Eucaristia para contemplar a fragilidade de Deus. Dediquemos tempo à adoração.. Deixemos que Jesus, Pão vivo, sare os nossos fechamentos e nos abra à partilha, nos cure da nossa rigidez e do dobrarmo-nos sobre nós próprios; nos liberte da escravidão paralisante de defender a nossa imagem, e nos inspire a segui-lo onde Ele quer conduzir-nos. Não onde eu quero».

Centra-se no versículo 33, na nova versão da Bíblia italiana: «Va dietro a me, Satana» ( põe-te atrás de Mim, Satanás). E Pedro dá um passo atrás, reconhece que o centro não é o seu Jesus, mas o verdadeiro Jesus. Continuará a cair, mas, de perdão em perdão, reconhecerá cada vez melhor o rosto de Deus. E passará da admiração estéril por Cristo, à imitação concreta de Cristo.

Caminhar atrás de Jesus é seguir avante na vida com a mesma confiança de Jesus, a confiança de sermos filhos amados de Deus…É ir cada dia ao encontro dos irmãos. É para isso que nos impele a Eucaristia: sentirmo-nos um só Corpo, partirmo-nos pelos outros. Deixemos que o encontro com Jesus na Eucaristia nos transforme e nos abra à novidade escandalosa do Deus crucificado e ressuscitado, Pão partido para dar vida ao mundo. Estaremos na alegria e levaremos alegria aos outros. Assim poderemos responder com verdade à pergunta: «vós, quem dizeis que eu sou?» Para um verdadeiro cristão, «a fé não é açúcar que adoça a vida». «Acolher Jesus significa aceitar que Ele ponha a nu as minhas contradições, os meus ídolos, as sugestões de mal. E que se torne para mim Ressurreição, Aquele que sempre me levanta, me segura pela mão e me faz recomeçar. Sempre me levanta». (Homilia de 15 de Setembro)



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