Espaço do Diário do Minho

11-S, o dia que não terminou!(2)

28 Set 2021
Acílio Estanqueiro Rocha

Concluímos o artigo anterior (em 11/09/2021, sobre os 20 anos do 11-S de 2001), afirmando que a caótica saída americana do Afeganistão foi uma derrota dos EUA e do Ocidente, cujas razões vão para além (ou aquém) de estratégia militar.

1. Se tivessem lido a 1.ª das “Cartas de Inglaterra” de Eça de Queirós, aquela que se refere ao Afeganistão, teriam porventura alterado a estratégia bélica do Afeganistão (2001-2021). Leia-se esta afirmação queirosiana, substituindo apenas Inglaterra por Estados Unidos: “Mas quando eles trabalham sobre antigas civilizações (…), onde existem artes, costumes, literaturas, instituições, em que uma grande raça pôs toda a originalidade do seu génio, então a política anglo-saxónica repete pouco mais ou menos o sacrilégio de um atentado de quem desmantelasse um templo budista belo como um sonho de Buda, para lhe dar na sua reconstrução as linhas hediondas do Stock Exchange de Londres”. Eça adverte que nem souberam extrair lições do passado: “Em 1847, os ingleses invadem o Afeganistão, e aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas. Apossam-se, por fim, da cidade santa de Cabul. Sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes E logo os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, (…). Assim é exactamente em 1880”.

Que se passa, entretanto, sem dar nas vistas? “No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes enérgicos, messias indígenas, vão percorrendo o território e, com grandes nomes de Pátria e Religião, pregam a guerra santa. As tribos reúnem-se, as famílias feudais correm com os seus troços de cavalaria, príncipes rivais juntam-se no ódio hereditário contra o estrangeiro, o homem vermelho, e em pouco tempo é todo um rebrilhar de fogos de acampamentos no alto das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho e a entrada da Índia”.

2. Eça iniciava a carta dizendo que agora sofrem “a verdade desse humorístico lugar-comum do século XVIII: A História é uma velhota que se repete sem cessar”. Por isso, insiste: “Foi assim em 1847, é assim em 1880”, continuando: “Então os restos debandados do exército refugiam-se nalgumas das cidades da fronteira, (…): os afegãos correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientais”. Acresce que aos ingleses (neste caso, aos americanos), julgando-se superiores, escapa-lhes o mais desolador: “No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens, que ou defendiam a pátria ou morriam (…), lá ficam, pasto de corvos, o que não é no Afeganistão uma respeitável imagem de retórica: são os corvos que nas cidades fazem as limpezas das ruas, comendo as imundícies e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas”. Afinal, para quê? “E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta no fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota, nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónicas”. Porquê? “São as fortes necessidades de um grande império”.

3. Nos primórdios, pela geografia, passagem obrigatória entre Ocidente e Oriente, o Afeganistão sofreu com as invasões persas, com os exércitos (de macedónios e gregos) sob o comando de Alexandre O Grande, com as invasões dos mongóis, e, no século XIX, com as três invasões dos ingleses quando o Império Britânico era potência mundial. Depois, foi a União Soviética que, após invadir o país (1979) para expandir e aí assegurar o comunismo, é derrotada após 10 anos de ocupação (1979-89). E ambos, britânicos e soviéticos, sendo potências imperiais ao invadirem o Afeganistão, desmoronaram-se ao saírem! Não se esqueça que, no século XX, durante décadas, o Reino do Afeganistão foi um oásis cosmopolita, onde coexistia música, cinema, desporto e lazer, boa gastronomia, onde afluía muito turismo – não menos que na Europa!

Passada a fase de retaliação aos talibãs e a aniquilação de bases terroristas responsáveis pelos atentados de 11-S de 2001, George W. Bush, e a sua administração neoconservadora, quiseram atribuir aos EUA um papel especial no mundo – que viam como um jogo de bilhar –, no incremento dos interesses nacionais. Após 20 anos no terreno, de novo o Afeganistão foi “cemitério de impérios”; a estes, faltou flexibilidade para entender tamanha complexidade: uma região difícil, sem saída para o mar, instável mosaico de cidades, coexistência de feudos tribais, uma infra-estrutura pobre e um débil desenvolvimento… Não se diga que os seus habitantes não apreciam, o conforto, a escolha, a igualdade entre homem e mulher, a liberdade… A precipitada debandada, com as cruéis imagens de desespero que se viram, evidenciou o contrário: a liberdade e os direitos humanos são uma aspiração universal.

Foi desastroso não ter sido dado ao povo afegão a possibilidade de escolher quem os governe; ao invés, foram entregues a uma das piores opressões do mundo.

O autor não segue o denominado “acordo ortográfico”



Mais de Acílio Estanqueiro Rocha

Acílio Estanqueiro Rocha - 28 Jul 2021

1. No artigo anterior já expressei o meu pasmo com a aprovação duma lei intitulada “Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na Era Digital”, susceptível de instaurar um regime de vigilância e de controlo da liberdade de expressão – uma censura a posteriori. Recorde-se o art.º 6.º, onde se considera “desinformação toda a narrativa comprovadamente falsa […]

Acílio Estanqueiro Rocha - 20 Jun 2021

As lutas históricas pela liberdade de expressão e liberdade de informação remontam longe no tempo. Recentemente (24 de Abril) publicámos aqui reflexões sobre o livro de John Stuart Mill, “Sobre a Liberdade” (1859) e o Ensaio sobre as Liberdades (1965), de Raymond Aron (1 de Junho). O que nunca esperaria é que fosse aprovada a […]

Acílio Estanqueiro Rocha - 1 Jun 2021

Há cerca de um mês (pelo 25 de Abril), fizemos algumas reflexões em torno do livro de John Stuart Mill, “Sobre a Liberdade” (1859) – cuja releitura é indispensável quando surgem modos subtis (alguns tão discriminatórios que nada têm de subtis) de atentar contra a liberdade de expressão. Este mês, demo-nos conta que saiu uma […]


Scroll Up