Espaço do Diário do Minho

Quando a ferrugem chega ao poder

5 Out 2021
Luís Martins

Algumas horas depois de ter concluído a última crónica, os resultados consolidados apresentaram a realidade. Metade ou mais do texto rimava ainda, mas ficava claro que nem sempre as vitórias são totalmente felizes. E que há ferrugem na engrenagem.

Acontecia com o Partido Socialista, o partido com maior número de mandatos, que ganhou perdendo várias batalhas, algumas bastante doridas, reconfigurando a luta intestina da sucessão no partido e denunciando o que pode ser o princípio do fim da governação socialista. É verdade que não se tratou de eleições legislativas, mas a população sempre remete avisos quando retira o mandato a candidatos do partido que está no governo central. Não é que as previsões não prometessem surpresas, mas sucederam mais do que a imaginação e a estatística das probabilidades alcançavam.

Acontecia também no Partido Social Democrata, o principal responsável por estragar um pouco da festa socialista e que recuperara, por essa via, a viabilidade do seu líder. A fasquia a que se propusera tinha sido superada, mas isso não evitou, desde logo, que se tivesse começado a contar espingardas entre alguns prováveis candidatos à sucessão, admitindo alguns que Rio não tem, apesar de tudo, condições para ser alternativa a Costa ou a algum outro socialista.

Nos centristas era algo parecido, com os rivais internos a Rodrigues dos Santos a saírem do conforto de não terem de enfrentar o deserto eleitoral dos últimos anos e a reclamarem um estatuto que não quiseram assumir quando o partido onde eram protagonistas ou de que eram responsáveis bateu no fundo.

Nos partidos que têm viabilizado o governo socialista, a derrota efectiva em toda a linha foi admitida com clareza no Bloco de Esquerda (BE), mas não assumida no Partido Comunista (PCP). Seja como for, os mais próximos do actual governo andam a cair aos bocados a cada eleição que passa, algo que certamente os fará reflectir no futuro próximo, quando estiver em cima da mesa o próximo Orçamento de Estado e tiverem de decidir se continuam ou não a oferecer-se para manter estendido o tapete ao parceiro comum.

O Chega não venceu nenhuma câmara, mas o número de mandatos de um partido que tem dois anos, comparado com o de outros partidos com maior experiência e que têm acompanhado no Parlamento o partido que governa o país, faz supor que o nobel partido terá uma importância equivalente à que tiveram e têm o BE e o PCP na solução que pôs fim à governação do partido vencedor das legislativas e implantou a governação dos equilíbrios conseguidos no Parlamento. Apesar de tudo, ficou uns furos abaixo do que se tinha proposto.

Um dos aspectos que a democracia tem de positivo é que, de quando em vez, se verifica o estado das peças que a fazem funcionar, avaliando se estão em condições ou precisam de ser substituídas. Como nas coisas materiais, que têm um certo tempo útil, também nas engrenagens do poder a ferrugem pode penetrar. E como sabemos, a ferrugem corrói, destrói, limita e incapacita, pelo que se queremos prolongar a vida útil de alguma máquina precisamos de lhe fazer manutenção regular e usar um qualquer W40 que a lubrifique para evitar a sua morte prematura. Limpando ou substituindo as peças debilitadas é possível conservar o essencial. Ao contrário, quando se resiste em não combater as debilidades e se deixa em desuso o bem perecível, deixando exposta a corrosão, a ferrugem toma paulatinamente conta de tudo. O poder também não pode excluir esta dinâmica, sob pena de se colocarem em causa bens maiores e mais importantes. Na governação, a ferrugem é sempre testemunha de acusação quanto ao cansaço da política seguida, dos vícios que se instalam nos corredores do poder e em quem manda. Uma certa arrogância, intransigência, pretensão de monopolizar e presunção de serem “donos disto tudo”, são sintomas que precisam de ser debelados e substituídos por melhores práticas e por outros interlocutores. No caso dos órgãos e instituições de uma democracia, se queremos que o sistema resista ao tempo, é inevitável que a alternância aconteça para que a ferrugem se não entranhe.



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