Espaço do Diário do Minho

Para onde caminhamos?

12 Out 2021
J. M. Gonçalves de Oliveira

Lendo e relendo o artigo “Um apetite insaciável”do sociólogo António Barreto no jornal Público do último sábado, não posso deixar de subscrever tudo o que escreve, bem como replicar o alerta que implicitamente o autor deixa à sociedade portuguesa.

Resumidamente, no referido texto, António Barreto aponta a ascensão das esquerdas dentro do Partido Socialista como uma das causas para a ânsia de querer alargar o Estado e o poder do Governo sobre a sociedade. De facto, seguindo o raciocínio do autor, é bem notória a vontade indomável do Governo e do partido que o sustenta de aumentar o poder sobre a sociedade, promovendo a dependência subserviente aos poderes públicos de setores tão importantes que vão da economia às Forças Armadas, da informação à cultura e mais recentemente à organização das profissões.

Os exemplos proliferam. Desde a utilização do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para prosseguir e ampliar o modelo económico de privilegiar tudo o que é público em detrimento do privado, passando pela tentativa de subordinar as chefias militares ao controlo governamental e terminando na possível alteração legislativa visando fragilizar as ordens profissionais nos seus direitos e competências, tudo tem sido tentado.

Enquanto isto acontece, o país assiste tranquilo e sereno sem que se vislumbre uma reação expressiva e categórica ao que se está a passar. Tal como António Barreto questiona no fim do seu artigo “Haverá ainda quem esteja interessado em fazer parte de uma sociedade de cidadãos, de homens e mulheres livres e de instituições independentes?”, também eu pergunto, para onde caminhamos? Que sociedade estamos a construir? Como queremos viver amanhã? Onde irão parar os valores da liberdade, da igualdade de oportunidades, da autonomia e do livre arbítrio? E será que poderemos ter uma economia sólida e competitiva?

Bem sei que, como a sabedoria popular tão bem expressa no provérbio português “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe”, tudo tem um fim.

De repente, fruto do desgaste e do cansaço ou por qualquer tempestade imprevisível, tudo pode mudar velozmente.

Embora pareça não haver sobressaltos para os arautos do poder que nos governa, há sinais de desassossego e vozes que esporadicamente se fazem ouvir.

Há sinais de desassossego do Primeiro-ministro quando se exalta e perde o alinho, como foi patente no diálogo que manteve com o deputado Coelho Lima, na Assembleia da República.

Há vozes que se fazem ouvir em ajuizados alertas sobre o caminho que o país está a trilhar, como a do antigo ministro das Finanças e atual governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, quando avisa sobre os perigos que a elevada dívida externa encerra. Advertências e caminhos alternativos lançados pelo antigo primeiro-ministro e presidente da república, Aníbal Cavaco Silva, quando se refere ao modelo económico que o país vem seguindo e aos perigos de Portugal continuar a divergir dos seus parceiros da União Europeia. Alertas e pedidos do próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, quando fala da necessidade de uma oposição forte e pede uma alternativa credível e vigorosa à presente governação.

Enfim, embora abundem motivos para preocupação e inquietude sobre o nosso futuro coletivo, é preciso não esmorecer.

Aqui e além ouvem-se vozes e despontam sinais que devemos replicar para mantermos a esperança e podermos acreditar num futuro de progresso e de paz.

Porém, há que estar atento e não deixar de perscrutar as maiores ou até as mais pequenas alterações que vão sendo introduzidas à nossa vida comum, por qualquer via, e não deixar de interrogar – para onde caminhamos?

Respondendo à questão colocada por António Barreto no artigo acima referido, acredito que a maioria do povo português quer continuar a fazer parte de uma sociedade de cidadãos, de homens e mulheres livres e de instituições independentes.

Façamos por isso!



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