Espaço do Diário do Minho

Stress pós-eleitoral

12 Out 2021
Luís Martins

Costa irritou-se na última quinta feira quando foi debater “política geral” ao Parlamento. Acabou por dar com a língua nos dentes e admitir que utilizou o Programa de Recuperação e Resiliência para conseguir ganhos nas eleições autárquicas. E foi ainda mais longe ao deixar que notássemos a sua arrogância e os tiques de tirania de que já desconfiávamos que tinha. Sintomas de stress pós-eleitoral! Pode parecer estranho que alguém que ganha umas eleições sofra desse mal, mas a verdade é que ganhar a guerra não significa necessariamente conseguir ganhar reconhecimento e poder. A prova tê-mo-la no que aconteceu no último acto eleitoral. O Partido Socialista perdeu algumas autarquias emblemáticas – não foi apenas uma ou duas, mas uma série delas – e o partido ficou desestabilizado. Instalou-se a percepção pública de que os resultados, apesar de positivos, podem ter contribuído para o início de inversão do ciclo político. Entretanto, alguns críticos já saíram do núcleo duro do secretariado do partido da rosa. Com a percepção de que sairá em 2023, Costa está a perder as rédeas no partido e no Governo. Os nervos andam à flor da pele, denunciando tensões internas e desinibindo os que têm escondido as discordâncias sobre a governação. Apesar de se não falar como antes de ministros a remodelar, o governo está mais fraco e há pelo menos um ministro que acusa outro de não o deixar ter sucesso, o mesmo é dizer, de não deixar que uma empresa pública, que agrava ano após ano o seu défice estrutural, seja viabilizada, acabando por desautorizar quem coordena o Executivo. É o stress pós-eleitoral. Quando se não é feliz com uma vitória é por que algo não está bem nas hostes vencedoras. É verdade que os adversários estão ainda razoavelmente longe – perderam por muitos –, mas conseguiram encurtar a diferença. Num jogo de futebol, por exemplo, se a equipa que perde mete um golo, ganha logo ânimo acrescido ao mesmo tempo que a equipa que ganha se desmoraliza pela mudança no marcador. O Partido Socialista perdeu nas autárquicas mais sob o ponto de vista anímico do que os resultados indicam e ficou desde então algo ansioso, a começar pelo seu líder. Tal não deixará de condicionar a argumentação deste quando estiver a negociar com os parceiros de esquerda, os mesmos que foram perdedores de verdade, mas que se tornam imprescindíveis para que a estabilidade parlamentar e governativa se mantenha até ao final da legislatura.

Claro que os parceiros também andam ansiosos. Afinal de contas, têm perdido consecutivamente – as eleições autárquicas foram tão-só a última vez em que tal aconteceu – desde que estabeleceram o pacto com os socialistas e devem ter-se colocado a questão dos prejuízos que o apoio ao maior partido político da actualidade lhes tem dado e que os eleitores tão claramente lhes têm mostrado em todas os actos eleitorais entretanto realizados. Certamente já não acreditam que o seu posicionamento na parceria capitalize votos como inicialmente alimentaram e vão deixar cair algumas barreiras que diziam segurar para que a direita não avançasse. Estou certo que concluíram que uma certa independência lhes pode trazer mais ganhos ou, no mínimo, lhes evita perdas.

Intranquilidade também no centro-direita, em ambos os partidos que já foram governo e almejam voltar ao poder. O problema é que os avanços conseguidos nas autárquicas, designadamente, por parte do maior partido da oposição, não chegaram a ser significativos ao ponto de infringir maiores males aos socialistas. A distância é ainda muita e isso deu azo a que movimentos internos se afirmassem, estando para relativamente breve a implementação de novas estratégias, seja pela troca de protagonistas, seja pela consciencialização da sua necessidade pelos actuais líderes, atenta a oportunidade para o arranque do ciclo de dois anos até às próximas legislativas, altura da clarificação de novo ou novos ciclos políticos. Quem quer a direita como candidato a próximo primeiro-ministro? É preciso que se decida. Fazê-lo mais tarde não valerá o trabalho!



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