Espaço do Diário do Minho

Dante pelo olhar de D. Tolentino

13 Out 2021
Carlos Vilas Boas

No ano em que se recorda o VII centenário da morte de Dante Alighieri, ocorrida em 1321 em Ravena, o Papa Francisco publicou em março a Carta Apostólica Candor lucis aeternae, na qual destaca a atualidade, a perenidade e a profundidade da fé da Divina Comédia, salientando que “o seu poema, expressão sublime do génio humano, é fruto duma nova e profunda inspiração, de que o Poeta aliás tem consciência quando fala dele como “poema santo que consagro, / em que puseram mão o céu e a terra”.

Não é de agora a admiração dos Sumos Pontífices por Dante. Paulo VI definia a Divina Comédia como poema da paz: “lúgubre canto da paz perdida para sempre é o Inferno, suave canto da paz esperada é o Purgatório, epinício triunfal de paz eterna e plenamente possuída é o Paraíso”. S. João Paulo II detém-se sobre o “transumanar”, ultrapassar o humano, afirmando que foi este o esforço supremo de Dante: “fazer que o peso do humano não destruísse o divino que existe em nós, nem a grandeza do divino anulasse o valor do humano”.

Bento XVI, antes de renunciar ao múnus Petrino, na Encíclica Deus caritas est partiu da visão que Dante tinha de Deus e na qual “luz e amor são uma coisa só”, para propor uma reflexão sobre a novidade da obra de Dante, prosseguindo o autor de “Jesus de Nazaré” – a obra de cabeceira que aumenta a nossa fé – que “o olhar de Dante vislumbra uma coisa totalmente nova (…), a revelação de Deus como círculo trinitário de conhecimento e amor é a perceção dum rosto humano – o rosto de Jesus Cristo – que aparece a Dante no círculo central da Luz”.

“Dias de Dante 2021. No VII centenário da morte de Dante” é um evento que a Fundação Calouste Gulbenkian acolhe em Lisboa entre 23 de setembro e 29 de novembro de 2021.

As celebrações abriram com a inauguração de uma exposição: “Visões de Dante: o Inferno de Botticelli”, em que foi apresentada uma seleção de manuscritos e de edições raras da Divina Comédia, alguns provenientes da Biblioteca Apostólica Vaticana. A conferência de abertura foi realizada pelo seu Bibliotecário o Cardeal D. Tolentino de Mendonça.

D. Tolentino já havia exprimido a sua convicção que a Divina Comédia pode ser lida como uma “pedagogia poética e espiritual do olhar”, como um “itinerário de aprendizagem da visão”, obra continuamente revisitada por artistas plásticos de primeira grandeza, como Botticelli, Blake, Doré, Rodin ou Rauschenberg. “É como se tivessem sido chamados por Dante a ver com ele, através dele, além dele. Mas, ao mesmo tempo, esta intensidade histórica do comentário visual em torno à Comédia declara a força visionária de um texto que não dita uma ótica, um padrão imagético, mas simplesmente “põe a caminho o ver”. Não impõe uma representação do real, mas pede a cada um que construa o próprio olhar. Celebrar Dante é, por isso, interrogarmo-nos sobre quem somos, reconhecendo que é nesta interrogação que o homem se torna quem é, não reproduzindo respostas aviadas, mas percursos de descoberta e novos começos.

Na sua conferência de abertura: “Todos somos chamados a construir visões – A Divina Comédia como pedagogia do olhar”, o Cardeal cita o poeta russo Mandelstam, que se apoiava nela para sobreviver ao terror estalinista da década de 1930, não obstante ter acabado por morrer no degredo da Sibéria, para acentuar que o olhar de Dante é o da recusa em permanecer acorrentado a determinado presente.

Recorde-se que no Canto X do Inferno, originalmente centrado na conversa entre Dante e o seu opositor Farinata, Óssip Mandelstam observa a existência de um terror praesentis, ali, naquela região do inferno onde o pecador é capaz de prever o futuro – cuja duração se esgota no Apocalipse – sem jamais ter acesso ao presente. Assumindo-se como um humilde frequentador da poesia, D. Tolentino encontra em Dante “um jogo límpido de experiências e tantas daquelas coisas novas e antigas que Jesus na parábola diz ser o tesouro de todo o escriba iniciado no conhecimento”, concluindo que a “escola do olhar transmitida pela Divina Comédia” nos põe “a treinar, a purificar o nosso próprio olhar” e condensa a obra: “Dante tem razão. Todos somos chamados a construir visões!”.

Na Faculdade de Direito em Coimbra, quando entrava para as orais mais difíceis, o estudante lembrava o aviso da Porta do Inferno: “Vós que entrais, abandonai toda a esperança”. Revisitemos agora a obra no outro olhar que nos oferece D. Tolentino.



Mais de Carlos Vilas Boas

Carlos Vilas Boas - 7 Out 2021

Desde que no dia 4 de dezembro de 2019 foi tornado público que o Conselho Mundial da Federação Internacional do Automóvel (FIA) ratificou a deliberação de 6 de novembro de 2019, de atribuição do FIA Hill Climb Masters a Braga em 2020, que muita água correu por debaixo da ponte. A prova estava inicialmente prevista […]

Carlos Vilas Boas - 29 Set 2021

Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Frequentemente é dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas. Numa democracia madura como a nossa, o povo votante tem essencialmente razão. Quem não tem razão é o inscrito que se abstém, o maior […]

Carlos Vilas Boas - 15 Set 2021

No decorrente mês estamos convocados para eleger os nossos autarcas. A relação de proximidade entre o cidadão e o político assume peculiar dimensão na municipalidade e na freguesia. O confronto quotidiano com o poder local é mais efetivo do que com o poder central. O presidente da Câmara designa normalmente um dia semanal para receber […]


Scroll Up