Espaço do Diário do Minho

Ameaças para não levar a sério

19 Out 2021
Luís Martins

Apesar das ameaças, não chegará a haver crise. Mas, ao contrário do que declarou o ministro da Economia, não será por o eleitorado não querer eleições. Os partidos de esquerda é que não terão interesse nisso. Nenhum deles. Só teriam a perder, a atender às sondagens e ainda mais aos resultados das últimas autárquicas. Quase todos os demais – excepção feita aos centristas, que não terão tempo de recuperar, a acreditar em algumas evidências – só teriam a ganhar. Os socialistas voltariam, com muita probabilidade, a ter mais deputados, com maioria relativa, embora já sem as muletas comunista e bloquista. Comunistas e bloquistas preencheriam menos cadeiras na Assembleia da República e manteriam um distanciamento maior do partido maioritário, desfeito que ficaria o pacto de parceria. Os sociais democratas e o partido Chega seriam, à partida, os grandes beneficiados, embora se tivesse que contar com as convulsões internas dos primeiros que estão em curso.

É a esquerda, toda ela, que receia o chumbo do Orçamento, não a direita. Aqui, os votos dispersar-se-iam em eleições antecipadas, mais do que antes, mas representariam mais mandatos, ainda assim sem crescer o suficiente para escolher o primeiro-ministro, mas ganharia sempre espaço ao Partido Socialista, ao Partido Comunista Português e ao Bloco de Esquerda. Por isso, quando os partidos que se têm concertado desde finais de 2015 fazem avisos ou ameaçam deixar de alinhar na aprovação dos Orçamentos de Estado é mera ficção. Não haverá certamente cumprimento das ameaças de forma a pôr em causa a maioria parlamentar de esquerda. Aliás, comunistas e bloquistas, apesar das muitas exigências, anseiam é que o tempo passe depressa para se libertarem das correntes que os ligam ao Governo e se recomporem do desgaste da parceria que, apesar de informal, os tem condicionado. Por enquanto, estão prisioneiros do acordo inicial que fizeram com os socialistas, quando estes ainda não eram vencedores. Têm ameaçado e continuarão a ameaçar, mas assegurarão, com toda a certeza, em conjunto ou alternando na defesa da governação socialista, a estabilidade governativa enquanto Costa se não ausentar. Podem estar arrependidos, e acho que estão, mas não será oportuno deitarem a toalha ao chão. Ameaçam para manterem os seus eleitores motivados e fieis, mas não têm a coragem que aparentam ter.

Num cenário, bastante improvável, de crise política resultante do chumbo do Orçamento de Estado para 2022 por parte dos parceiros do Governo, a direita, que não intervirá na equação, pode não ganhar muito com a antecipação do fim da legislatura actual. Os dois principais partidos da oposição enfrentam, nos tempos mais próximos, eleições internas, pelo que os apanharia com as calças na mão. E o partido com possibilidades de propor um novo primeiro-ministro não pode deixar de estar concentrado na discussão do documento financeiro estruturante para o país. Se as coisas correrem mal, deve estar preparado para o pós-crise política. Ora, tal não será assim por força das eleições internas, eventualmente desmobilizadoras caso Rio se afaste e não concorra, ou de luta intestina se o actual líder teimar em disputar a continuidade. Num caso ou noutro, o partido não dará tudo para mostrar que pode ser alternativa. Por isso, se houver eleições antecipadas, é bem provável que o Partido Socialista continue à frente em número de deputados eleitos e o Partido Social Democrata se atrapalhe nos jogos de sucessão interna, ainda mais pelo facto do partido não esperar pela votação do Orçamento para a realização das suas directas.

Quanto ao Partido Comunista e ao Bloco, não é agora que vão matar o mal pela raiz, que a conjuntura não lhes é favorável. Vai ser preciso haver eleições legislativas no calendário normal para que os parceiros do Partido Socialista se desamarrem, sem maiores perdas, do compromisso que ainda resta. Até lá, estarão inevitavelmente colados à parceria, à sua manutenção e à sua queda. O ónus da eventual crise política recairá sempre sobre eles. É a consequência de uma aventura atribulada pelas margens do poder.



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