Espaço do Diário do Minho

Amar o próximo como a si mesmo

23 Out 2021
P. Rui Rosas

O primeiro Mandamento da Lei de Deus diz-nos que devemos “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos”. É, sem dúvida uma indicação que mexe com todo o nosso comportamento. E não só em determinadas circunstâncias, mas em todos os momentos e situações da nossa vida.

A atitude de cada um para com este preceito divino, condiciona a integridade da sua conduta. Qualquer acção, mesmo esporádica, que não o tenha em conta, conduz a uma infracção comportamental, porque não executa o que está de acordo com a vontade de Deus, que é a condição indispensável para que algo seja efectivamente perfeito. Perfeito na intenção, no modo de executar e de acordo com as condições que uma acção exige para que seja bem realizada.

Alguém comentava, como que em tom de lamentação, que este primeiro mandamento era correcto, na sua primeira parte, mas custoso, na segunda. Como assim?

E explicou que “amar a Deus sobre todas as coisas” era totalmente plausível, porque Deus é absolutamente perfeito em Si e em tudo o que faz. No entanto, “amar o próximo como a nós mesmo” faz uma generalização dos outros de tal modo favorável, que nos custa a entender em certas situações.

Um seu colega de trabalho pediu-lhe que esclarecesse melhor esta observação. Foi categórico. “Próximo… próximo…, ele há aí cada próximo que de próximo não parece ter nada!” Como assim? E exemplificou: “Imagina que, como aconteceu há uns meses comigo, aparece um fulano em tua casa, que desconheces por completo, pergunta por ti, cumprimenta-te amavel e respeitosamente, e pergunta ainda pela tua saúde, explicando-te que era um amigo de longa data da minha tia Cremilde, há pouco falecida.”

Tu nada sabias dessa relação. Mas o senhor descreve-te uma série de situações de convivência com a recém-defunta, da amizade que ela lhe dispensava, da confiança na sua ajuda e convivência desinteressada, etc.. Tudo se enquadrava com a realidade. A Senhora D. Cremilde, acrescentava, era uma pessoa excelente, comunicativa, solteira, que auxiliava obras de caridade e outras pessoas. Tanto assim, que, no dia do seu funeral, algumas destas lhe tinham confidenciado que, em momentos ingratos da vida, ela fora a grande amiga, um autêntico anjo da guarda!

O teor das informações era tão claro e objectivo que de nada suspeitou. Ao fim de meia hora de um discurso laudativo, onde manifestou não só o seu apreço pela falecida benfeitora, mas toda a confiança que ela em si depositava, explicou-lhe que, de vez em quando, a D. Cremilde lhe pedia para ajudar monetariamente as suas liberalidades de bem-fazer, solicitando-lhe emprestado algum dinheiro. No final do mês, com a sua honestidade intocável, devolvia-lhe os débitos que com ele contraíra, já que tinha uma boa reforma da sua actividade profissional, exercida durante décadas com muita competência e toda a hombridade. E, como remate, lembrava-lhe que ainda há pouco estivera com um colega de trabalho da defunta, aliás seu subordinado, cujo nome explicitou, o qual lhe manifestou as saudades insanáveis pelo labor profissional, justo e competente, da D. Cremilde.

E chegou ao momento inevitável: a tia, quinze dias antes de morrer, pedira-lhe se lhe propiciava, até ao final do mês, setecentos e cinquenta euros, a fim de aliviar as economias duma família necessitada, em que o pai adoecera repentinamente. “O meu coração – explicava com toda a naturalidade -, apesar das dificuldades pessoais que me atormentavam, não soube dizer que não…”.

O resto da cena é previsível: a D. Cremilde morrera e ele ficara “a ver navios” em relação ao seu último empréstimo. Se fosse possível… Mas não queria, de modo algum, prejudicar… Enfim, lá levou a quantia que desejava…

Bastante tempo depois, o sobrinho encontrou o outro personagem a que o senhor dos 750 se referira. Este, seu conhecido de velha data, deu-lhe, de novo, os sentimentos pela Tia Cremilde. E, por acaso, referiu a sua generosidade para com os necessitados. O meu amigo contou-lhe a história do senhor a quem a sua inefável Tia tinha pedido 750 euros quinze dias antes de morrer… Não o deixou continuar. “Está na cadeia. Grande aldrabão! Também a mim me levou…”. E explicou-lhe que foi preso e teve uma sentença dura, porque ludibriara muitos incautos com histórias cheias de generosidade misericordiosa absolutamente falsas. O dinheiro era para a droga e os copos.

Teve um momento de fúria interior. “Como é que este patife pode ser de facto meu próximo”? Nada comentou. Já sozinho, pensou com os seus botões: “Ele é, apesar de tudo, filho de Deus. E, portanto, meu irmão. Tenho de rezar por ele, apesar de me custar. Este “meu próximo” precisa ainda mais do meu perdão e da minha oração…”



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